2.6.13

Uma leitura judaica do Vampire Weekend

No Êxodo, há um episódio singular que define a imagem do Deus dos antigos hebreus e que se tornou uma das bases para a concepção divina dentro do judaísmo. De quem é, de fato, Deus. Moisés pergunta a Deus qual é o Seu nome, como deve referir-se a essa imagem que lhe faz tantos pedidos, que lhe traz tantos infortúnios. E a resposta, na forma verbal imperfeita de um hebraico bíblico cheio de desafios linguísticos, é apenas um "Sou o que sou".

O Deus hebraico (que viria a tornar-se o judaico), ao não revelar o Seu nome, indica um pouco de sua essência multiforme e que demanda constante exegese e investigação. E adiciona, em torno de três palavras (ehyeh asher ehyeh), mais uma das derivações do todo misterioso tetragramaton, que jamais pode ser evocado e que consiste de quatro letras: yod, he, váv, he. Ou י ה ו ה.

Ao longo de todo o Antigo Testamento, veremos a repetição deste estranho e poderoso nome de Deus, junto com variantes, dentre as quais se destacam Ha Shem (ou "o nome") e Adonai (algo como "senhor"). São sete as principais variantes, mas que se formam junto com outros elementos sintáticos e multiplicam as maneiras de referir-se a Ele. Cabalisticamente, há um enorme misticismo em torno de todas essas junções de letras hebraicas que variam em momentos diferentes da Torá. Os referentes matemáticos da língua hebraica permitem fazer as mais distintas interpretações, chegando até a expressão que representa a espiral do infinito, o Ein Sof (algo como "sem fim"). Deus é eterno, sem fim, tal qual Seu mistério.

Esta breve, e bem amadorística, introdução teológica serve para contextualizar a leitura judaica que farei de uma das músicas do novo disco do Vampire Weekend, Modern Vampires of the City. "Ya Hey" é a décima música e, na minha percepção, encerra, junto com "Hudson" e "Young Lion", a temática de desesperança do álbum. De uma falta de algo palpável na busca por Deus, em especial o deus que está registrado nos domínios do Antigo Testamento.


"Ya Hey" tem uma letra bastante explícita à Bíblia: Sião, Babilônia e o próprio refrão "Eu sou o que eu sou" indicam isso.

Oh, sweet thing, 
Zion doesn't love you
And Babyon don't love you
But you love everything.

Through the fire, through the flames
Ya Hey
You won't even say your name
Only "I am that I am"
But who could ever live that way?

Estes são a primeira estrofe e o refrão de uma música cheia de questionamentos existenciais, para não adentrar direto pela porta teológica ou judaica. Ninguém te ama ou te considera neste mundo, então por que você perde tempo gostando, amando, ou se apegando a tudo? Há um traço de ressentimento quando se expõe a situação injusta de viver em um mundo sem nada para apegar-se, em que tudo está eternamente em danação, em um cenário típico do Antigo Testamento, e da maneira como a humanidade se encontra desolada até a chegada do Messias.

O episódio, no Êxodo, que abre este post no primeiro parágrafo também revela um povo que precisa de libertação. Moisés, líder do povo hebreu na fuga do Egito, primeiramente falou com Deus através de uma chama de fogo que ardia duma sarça. A sarça somente ardia no fogo, mas não se queimava (through the fire, through the flames). Deus então se apresenta como o "Deus de teu pai, de Abraão, Isaque, Jacó" e revela que Moisés é quem vai livrar os hebreus das mãos dos egípcios. E, nos versículos 13 e 14 do terceiro capítulo, um dos diálogos mais fundamentais da Torá:

Eis que quando for aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?

E disse Deus a Moisés: Eu sou o que sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu sou me enviou a vós. 

I am that I am. You won't even say your nome. Que redenção podemos esperar de um Deus que nos responde algo tão banal? Que sequer revela a sua identidade, em um contexto, é preciso lembrar, repleto de deuses do antigo Oriente, mesopotâmicos, hititas, egípcios, canaanitas (sem mencionar os gregos). É um Deus que se posiciona dentre as divindades antigas ("o Deus de Abraão, Isaque, Jacó"), mas não diz o nome.

Erich Auerbach, no primeiro capítulo de seu clássico livro Mímesis, distingue o mito hebraico do mito grego. Enquanto a sintaxe (e mesmo o vocabulário) de um não responde a um critério rigoroso da linguagem e da precisão da mensagem, o estilo poético do segundo consagra uma forma ocidental de descrever seus mitos, suas religiões, suas crenças, ânsias. Enfim, suas histórias. O texto hebraico não se preocupa com tal precisão e até rebuscamento ou estilo. Parece ter um sentido simbólico e, como querem os cabalistas, matemático, de uma cosmogonia ou um gênese que se resolve por exegese, interpretação e muito estudo. Daí a base do judaísmo ser "o livro", ou o estudo constante e infinito deste livro, a Torá. Mais importante do que qualquer outra coisa para um judeu é estudar a Torá. E não frustrar-se com sua linguagem, com seus mistérios e com a falta de sentido de um Deus punitivo que se dirige aos homens com desvios sintáticos e semânticos dos mais absurdos.

Voltando à "Ya Hey", a letra enumera uma lista de elementos que não amam de volta o personagem a quem a música é dedicada. Sião, Babilônia, Estados Unidos, os que têm fé, os que não a têm. Recupera um sentido bíblico a uma contemporaneidade com suas inúmeras referências também sem sentido. Os israelitas, que poderiam ser mais uma explicitação da Bíblia ou do judaísmo, se transformam em outra coisa, pois, ao lado de "19th Nervous Breakdown" (sucesso dos Rolling Stones nos anos 60), viram música. É a canção "Israelites" de Desmond Deckker, um dos pioneiros da ska-music (também dos anos 60).

Mas o que me deixou mesmo intrigado - e o que me fez escrever este longo post - foi o próprio nome da música. Notei esses dias que é possível ler o Ya Hey como uma espécie de acrônimo do tetragramaton, que mencionei lá em cima. As letras hebraicas yod e he que, quando Deus reitera a Moisés o Seu nome, ele apenas diz "Eu sou" (sem o "o que sou"). Duas letrinhas hebraicas. Yod e he.

Musicalmente, mais uma vez, Ezra Koenig, o compositor principal do Vampire Weekend, transforma em "Ya Hey". Como fez com os israelitas, que virou um hit de reggae-ska, como fez com a Babilônia, que virou o cotidiano moderno de sua Nova York, esta também reflexo de diversidades e frustrações, a mesma frustração que dá o tom a Modern Vampires of the City, que parece homenagear a cidade.

A sequência com "Hudson", uma marchinha marcial ao rio que separa Manhattan do continente americano e que, do sul ao norte da ilha, percorre as inúmeras diferenças da cidade (de Battery e Tribeca, passando pelo Chelsea e Village, ao Upper West e ao limite com o Bronx), e com "Young Lion" fecha um disco marcado por uma sensação de desconforto, que o grupo já trazia em momentos dos anteriores, como "Taxi Cab" e "Contra" (do anterior) e "I Stand Corrected" (do primeiro álbum).

Ouça a música na íntegra abaixo em um lyric video que a banda fez recentemente para promover o álbum.




21.4.13

Os fins justificam os meios

Lembro que a primeira surpresa que tive ao entrar e começar a trabalhar em uma redação de jornal, em 2008, foi o total controle burro exercido pelos chefes. Tive poucos trabalhos em minha vida, acho que passei mais tempo estudando que trabalhando, mas o que vi nas duas redações que trabalhei (Folha e R7) não dá pra comparar com qualquer outro trabalho meu anterior. Chefe fica em cima o tempo todo e quer que você faça exatamente do jeito que ele acha que é o melhor. Não importa se você entrega uma matéria redonda ao seu leitor: se não foi do jeito que seu chefe pediu, se você não seguiu a apuração que ele te orientou, se você não olhou no Manual do Estudante da Abril em vez da Wikipedia pra checar se Nietzsche se escreve assim ou assado, você está lascado e leva bronca.

Jornalista, em geral, tem um apego meio cego às fontes. É do tipo que, por falta de confiança no próprio taco e na própria formação, precisa se apegar ao crédito bem certinho: Fonte - Joãozinho da Silva. Foto - Mariazinha Bezerra. Confiam mais em um Manual do Estudante da Abril tosco, desatualizado e superficial, que na internet, no Google ou na Wikipedia. Não se garantem, então que sobre tudo pra fonte. Se a foto está ruim, está aí o nome do vilão. Se a informação está errada, é culpa da fonte. Nem editor nem repórter botam o seu na reta e, no fim, salvo uma demissão ou outra, fica tudo em casa.

Este tipo de postura ganha uma proporção maior e quase cômica quando uma revista bem conceituada ou um jornalzão comete um desses erros de apuração bizarros, que revelam o quanto o profissional desta área tem uma formação humanística quase tão ruim quanto o segundo grau dos jovens brasileiros. É comum encontrar informações básicas erradas em uma revista como a Piauí, por exemplo. Para uma revista que, de maneira pretensiosa e preconceituosa, se vende como "para quem tem um parafuso a mais", chega a ser falta de respeito com o leitor que não espera encontrar países com as capitais erradas, por exemplo. Ou gente falando do que não entende absolutamente nada. Tem casos na Piauí de que parece que colocaram um jogador de futebol pra falar de Kant. Não dá. Esse "parafuso a mais" está mais para um Frankenstein todo desorientado e torto.

E aposto que na redação dessas revistonas mais cult o controle ao que o repórter ou o redator acessa é até pior que em um jornal diário como a Folha. Wikipedia deve ser até bloqueada nos computadores deles - e, mesmo assim, na hora de "checar", eles vão lá no Manual do Estudante Edição Blaster of the Universe 2013 e erram a capital da Polônia.

Este assunto me surgiu agora e me fez escrever aqui porque tenho percebido, com choque, que esse controle burro dos editores tem ocorrido até com os freelancers. Tem editor (de revista, jornal ou livro) querendo controlar como o seu tradutor/repórter deve trabalhar, o que ele pode acessar, o que não pode.

Uma amiga minha recebeu um teste de tradução para fazer em casa. Pra traduzir um livro de gastronomia do inglês para o português. O teste consiste de dez páginas no PDF, enviado na sexta-feira de noite com o prazo de segunda-feira de manhã. Desconsidera-se, pra começar, se a pessoa tem ou não fim de semana. Para piorar, o PDF veio todo travado e de ponta-cabeça, com muitas frases meio apagadas. Igual xerox. Tudo tosco mesmo. Pra segunda.

A praxe é que qualquer trabalho de tradução seja feito a partir de Word ou qualquer formato compatível que permita a seleção de texto. Que permita o tradutor seguir seu próprio modus operandi - o meu, por exemplo, é traduzir direto a partir do documento original. E, a cada parágrafo traduzido, vou apagando. Assim, evito trocas de janelas a cada trecho traduzido e o trabalho fica bem melhor e mais rápido. Até mais garantido que não vou dar nenhum "salto" (que é esquecer de traduzir alguma frase ou parte).

E a editora mandou para esta amiga um PDF, que não permite seleção nem nada. Ou seja, ela tem que ficar traduzindo de frase em frase, trocando de janela, enquanto eventualmente acessa o seu dicionário online em uma terceira janela - ou uma pesquisa no Google, em uma quarta janela. Um trabalhão que gera um enorme atraso e, claro, pode gerar erros de saltos ou digitação ou até idiomáticos mesmo.

Até pouco tempo todo mundo mandava em Word. Até pouco tempo, mesmo que você não tivesse o texto disponível no Word, qualquer editora profissional conseguia transformar um PDF para o Word. Existem profissionais e máquinas e programas que fazem isso. Não dá pra mandar um livro inteiro pra uma pessoa traduzir a partir do PDF. É ridículo. E isso tem acontecido cada vez mais.

O que isso tem a ver com o controle dos chefes chegando até os frilas? Para mim está clara uma desconfiança infantil do tipo: "não vamos te mandar no Word para evitar que você use o Google Translator". Qual o problema com o Google Translator, desde que a pessoa saiba a língua de origem? Qual o problema com a Wikipedia, com o Google, com a internet? Os chefes, por estes controles bobos do que pode ou não servir de pesquisa e de ferramenta de trabalho, estão querendo encerrar seus funcionários - e agora até os frilas - em masmorras com um lápis e uma borracha na mão. Ou um computador sem internet.

Falo por mim mesmo: uso o Google Translator, a Wikipedia, o Google Images e, eventualmente, até o tosco do Yahoo Respostas, quando a coisa está muito feia mesmo. Mas uso também livros, referências e dicionários consagrados para trabalhar, seja traduzindo, escrevendo ou editando. O que isso importa ao meu chefe? O que importa se usei o Google Translator ou o Oxford pra traduzir um trecho mais difícil? O que importa se usei a Wikipedia ou algum capítulo da biografia do Churchill escrita pelo Roy Jenkins pra checar alguma informação importante sobre o primeiro-ministro em qualquer ensaio que eu esteja escrevendo sobre a Segunda Guerra? O que importa se pedi pra minha mãe, namorado, melhor amigo ou até ao meu cachorro pra traduzir uma matéria para uma revista?

Nestes tempos sombrios do jornalismo e da produção editorial, continua valendo a máxima atrapalhada de que a execução vale mais que a conclusão.


7.1.13

Amour, de Michael Haneke



Em determinado momento do filme Amour, o diretor Michael Haneke interrompe um diálogo complicado do casal de velhinhos e nos expõe um conjunto de pinturas. São cinco ou seis quadros, que, percebemos ao longo da história, decoram diferentes pontos do apartamento onde vivem. Não são quadros famosos, mas ilustram uma extrema solidão. Dá para ver em cada uma das obras uma figura ou outra caminhando pela imensidão do cenário, montanhas, colinas, planícies. E sugerem, a partir desse ponto do filme, o que acontecerá com os dois protagonistas.

Amour é o filme mais cruel de Haneke. Ele nos transporta anos à frente, quer sejamos adultos ou jovens. Ele nos transporta para os nossos últimos dias, para os dramas cotidianos da doença, da demência, do casal cuja esposa se torna nula, vazia, ninguém. O mal que lhe acomete somente do lado direito invade o lado esquerdo, invade a cabeça, invade a casa e suas dependências e seus detalhes domésticos. São os barulhos dos pratos na pia, a cama chiando, o celular que toca no bolso do marido sem que ele o atenda, os impromptus de Schubert que não saem mais das delicadas mãos ao piano. O mal invade tudo, cada objeto e cada som.

Sem adentrar o psicológico de seus personagens, como é próprio do estilo distante de Haneke, o diretor segura a nossa mão e nos leva a cada canto do apartamento. Conta a sua história como se ele também estivesse a acompanhando, e não contando. Temos acesso ao inconsciente do personagem pela via do sonho, e muito rapidamente, e sem nenhuma pista psicanalítica do que aquele aguaceiro todo no corredor lá fora pode ser. Haneke quer estar ali conosco, vivenciar a experiência da surpresa, da quebra do tédio, da decisão brusca tomada no fim da história.

Jean-Louis Trintignant afirmou em entrevista de outubro passado que não queria fazer o filme quando recebeu o roteiro. Achou triste demais e ele estava passando por um momento de depressão. Seria demais pra ele, não aguentaria tamanha carga emocional. Que seria capaz de se matar depois de fazer aquele papel. Quem o convenceu foi a produtora de Haneke, que disse "por favor, faça este filme, depois pode se matar à vontade". E ele riu e topou. Certamente o papel de sua vida, junto com Ma Nuit chez Maud, de Éric Rohmer.

Georges, o papel que interpreta, é um personagem bastante oposto à esposa Anne (Emmanuelle Riva). Enquanto sabemos que ela é mais atraente, ácida, perspicaz, ele parece mais atrapalhado, com mais dificuldade para falar. Não à toa, suas histórias são menos interessantes, têm menos apelo. Relembra histórias sem graça da infância e descreve o dia a dia dos dois à filha (Isabelle Huppert) de maneira quase burocrática, programada, quase alemã, diferentemente da verborragia francesa da esposa. E a ironia é que ela é quem se degrada, quem passa a depender dele, inclusive para falar e ouvir.

O amor que os une é comovente. Ele, atrapalhado, canta uma música de amor a ela. Sur le pont d'Avigon, on y danse, on y danse tous en rond. E ela nada entende, mas se emociona feito uma criança que ouve algo que lhe é aprazível. E é contraposto a uma constante sensação de ameaça, de morte, pelo mal que se apoderou de tudo, dos dois, do discurso dos dois, do discurso fílmico, e da própria noção de amor que é despedaçada quando um dos amantes não consegue mais se ver nos olhos do outro.

É o passado que dá as cartas em Amour, não é o presente nem o futuro. Essas três margens do tempo estão soltas, despencando pelos aposentos do apartamento, mas são as memórias que entram à força na narrativa, seja pelas tentativas de Georges ou pelo saudosismo de quem sabe que vai morrer de Anne. Quando pede pra ver o álbum de fotos. Quando pede pro antigo aluno de piano tocar Beethoven. Quando, catatônica, grita cacos de vidro da infância. Pois é o passado que nos guia a todos nós adiante, mesmo que ao vazio, ao desconhecido, à solidão.

9.11.12

Explicando o desaparecimento

Este blog tem sido muito pouco atualizado, mas vocês podem ler os meus textos semanalmente no Trilhos Urbanos (escrevo todas as sextas) ou no blog da Dicta & Contradicta.

Alguns textos recentes:

Literatura ruim, mídia vendida, crítica rasa

Virei mercenário

Olhos nos olhos

Jornalismo de fim de semana

Pelo diploma do chorume

O Otto é a cara da Ilustrada

Deixo vocês com esse vídeo simpático também. :)









30.8.12

The wrong direction

A gente sabe que tem músicas ou livros que marcam alguma fase ruim das nossas vidas. No meu caso, a autora é a Carson McCullers. Sempre que pego os livros dela, tenho muita dificuldade pois lembro de um período catastrófico meu (2007/08) e nunca consegui mais ler decentemente. Paro no meio das frases melancolicamente. 

Há alguns minutos, fui corajoso e peguei uma coletânea de contos dela, dentre eles o Wunderkind. É sobre uma menina que todos a chamam de gênio da música e que sofre com essa pressão toda em um misto de baixa autoestima e hiper-sensibilidade. No fim da história, no teste decisivo, ela não consegue tocar mais o piano e sai correndo do conservatório. É muito comovente. Termina assim. 

Dragging her books and satchel she stumbled down the stone steps, turned in the wrong direction, and hurried down the street that had become confused with noise and bicycles and the games of other children.

19.8.12

Morre Hirao, meu grande amigo

Neste domingo (19) recebi uma notícia muito triste. Roberto Hirao, o meu melhor amigo no jornalismo, morreu neste fim de semana.

Conheci o Hirao quando editei o livro que reunia 70 textos dele na Folha da Tarde, chamado "70 Lições de Jornalismo". Trabalhei junto com a Cleide Floresta, à época editora do caderno Show do Agora, e diretamente com o autor, que me ensinou muito mais do que aquelas 70 lições.



Ao longo das muitas páginas e da edição do livro, me tornei amigo do Hirao. Ele me ligava, mesmo falando com muita dificuldade e com uma voz extremamente baixa, para conversarmos sobre cinema, uma de suas paixões. Principalmente o cinema japonês. Muitas vezes a gente ia tomar um café ou comer qualquer coisa na cantina da Folha, que ficava no 10º andar do prédio ali da Barão de Limeira. Ele me contava muitas coisas e histórias do jornalismo, como o Miguel Arcanjo também relembra aqui, além de falar sobre detalhes de filmes etc.

Dei para ele dois filmes de presente: o "Zelig", do Woody Allen, e o "A Condição Humana", épico do Masaki Kobayashi com mais de 9 horas de duração, dividido em três partes. Lembro que, depois do presente, ele reviu o filme (um de seus preferidos) e escreveu uma crítica para a Ilustrada (pode ser lida aqui). Para um senhor com certa idade, com uma doença que dificultava funções básicas no jornalismo como falar e escrever, o texto era um presente para mim.

No lançamento do seu livro, cheguei atrasado no dia. Alguns colegas presentes no dia me contaram que o Hirao ficava perguntando pra eles: onde está o Thiago? E todos o confortavam dizendo que eu já estava chegando. Quando cheguei, vi o Hirao de longe com a família (que o ajudava a autografar os livros), e fiquei muito emocionado. A gente se abraçou, de um jeito meio atrapalhado, mas muito intenso. E fiquei com muita vontade de chorar no dia, choro que hoje não consegui controlar.

Jantei algumas vezes em seu apartamento em Perdizes. Conversávamos muito, ele me mostrava trechos de alguns filmes e alguns de seus cantores japoneses prediletos. Ele me mostrava detalhes do prédio, me apresentava os carros de alguns moradores ilustres, como o de Marcelo Rubens Paiva, "carro inteiramente adaptado pra ele poder dirigir", repetia Hirao.

Hoje é um dia muito triste. É o primeiro grande amigo que perco em minha vida.


28.7.12

Registering madness


Deixe sua terra, a casa de seu pai, seu status, sua propriedade. E saia. D'us nunca foi muito claro com ninguém no Antigo Testamento. Sair pra onde? Sem resposta, apenas o som do vento que não indicava direção alguma. E Abrão (antes ainda de virar Abraão) saiu. 


Não acredito em D'us, mas sou apaixonado por suas histórias, o que talvez, a partir de determinada idade, me tenha feito descobrir a ficção e me apegado a ela em substituição ao que eu via em casa, na rua, na escola. E essa história, bastante introdutória na Bíblia e que já indiciava a figura misteriosa e absurda dessa divindade, não sai da minha cabeça. Como alguém cumpre ordens que podem ser fruto de uma esquizofrenia e sai assim de casa, sem saber sequer pra onde ir. No deserto. Me inspira e se renova constantemente como razão de viver. 

Não vou sair de casa definitivamente. Não vou andar pelo deserto até morrer de sede. Sei pra onde vou e sei quando volto e pra onde volto e pra quem eu volto. No entanto, cada período que passo em Nova York, curto ou longo, sozinho ou acompanhado, é cheio de mistério como a busca de Abrão pela voz misteriosa que o guia na imensidão de si mesmo, do que viria a ser Israel, do mundo e, em última instância, de D'us, representado figurativamente pela imagem do deserto cheio de tempestades de areia e pouca perspectiva. Pouca mesmo. 

Desde a primeira vez, vou lá para tentar me encontrar e achar qualquer sentido para a minha vida. Não descobri até hoje algo que substitua como ferramenta e como meio e, por isso, continuo indo lá. Na primeira vez, fui para morar. A partir da segunda, fui algumas vezes para passar dois ou três dias e, outras vezes, para passar um período maior. A partir da segunda vez, a viagem e a minha busca são pintadas pela cor ora ingrata ora reveladora da memória.

Como uma caça aos fantasmas do passado, a cada esquina, seja de Manhattan, do Brooklyn ou do Bronx. Nunca cataloguei a quantidade dessas espectros assustadores que me atormentam de noite, mas não são poucos. E considero batalha vencida cada reencontro com eles. Crio reflexões e ensinamentos que me ajudam a viver melhor comigo mesmo, a me entender, a tentar resolver o quebra-cabeça da vida. Fecho portas e caminho adiante, esperando a visita de mais um monstro que me quer me passar nova rasteira ao virar determinada esquina. 

Everybody needs his memories. They keep the wolf of 
insignificance from the door.
Saul Bellow em Mr. Sammler's Planet


23.7.12

Memória e enredos

Ao rever filmes, sempre constato duas coisas: (1) eu não lembro nada de enredo em filmes ou em livros; (2) isso deve dizer algo importante sobre a minha percepção da vida, das histórias e das pessoas que não me lembro se morreram, se já passaram antes ou depois do trem. 

Se isto é bom ou ruim, Freud jamais me confirmaria. A psicanálise vence por essas coisas, por te afundar mais em um mundo onde suas histórias pessoais e ficcionais são tão desordenadas como um redemoinho onde tudo se mistura e sua mente só se sai com passagens de ida, interrompidas por estações abandonadas ou turbulências desagradáveis. Não gostaria de ser assim, mas aprendi a aceitar o infortúnio mental.

16.7.12

Sobre a Granta brasileira

Ao passar o olho nos contos que não foram selecionados para a tal Granta brasileira (publicados no blog Off Granta), reconheço que aquilo que se encontra impresso na revista oficial é de fato o melhor material que o Brasil pode oferecer. 

É como, no boxe, o Maguila ter derrubado fácil o Johnny Nelson, em Osasco (em 95). Mas continua sendo o Maguila, sujeito que até humorista já foi. E o chão da comparação continua sendo Osasco.


20.6.12

On my own

Algumas pessoas têm suas conduções, seus ônibus, suas linhas de metrô, como parte de suas vidas. Me incluo nesse grupo.

Há um ônibus que sempre fez parte da minha: o 177-H (Butantã USP - Horto Florestal). Eu peguei essa mesma linha por exatos nove anos de minha vida. Foi o ônibus que me levou até a Etesp no colegial (na verdade, me levou até a estação de metrô, de onde eu me encaminhava para a Tiradentes, linha azul), até o Mackenzie na graduação e até a USP no mestrado. Três anos de colegial, mais quatro de faculdade e dois para concluir o mestrado em 2007.

Mais do que ter me levado, esse ônibus acompanhou parte da minha vida, dos meus dramas, do meu crescimento, dos meus choros contidos com a cabeça encostada no vidro, das minhas alegrias quando eu nem ligava se ele estava muito lotado e eu estava de pé, cheio de material na mão, nas costas.

Sempre que estou com alguém aqui pela avenida Angélica e ele passa, eu falo: "olha, esse ônibus fez parte da minha vida". Falo, mas as pessoas talvez não entendem, dão um sorriso e não fazem ideia da importância dessa linha de ônibus, do que eu acabei de falar.

Quando se é ou quando se passa muito tempo sozinho na vida, são esses elementos do cenário urbano que acabam sendo a nossa companhia. O ônibus, o trem, às vezes até aquele determinado banco do parque ou aquele canto na universidade onde dá pra sentar, comer o seu lanche, pegar o seu livro ou o seu walkman ou discman (se você é daquela época) e ficar um pouco ali. Pensando, fazendo planos, recuperando-se de frustrações.

Não dá para comparar ao 177-H, mas há um trem em Nova York que fez parte da minha vida: o F Train, que ia direto até o sul do Brooklyn, em Coney Island, bem perto de onde eu morava. De Manhattan até lá, eram mais ou menos 40 minutos diários. De pensamentos, livros, músicas, planos, frustrações. Saudades da minha mãe, do meu irmão, do meu pai, dos meus amigos, do meu gato. Rosto encostado no vidro manchado de melancolia.

Era uma linha bem tranquila e muitas vezes, já tarde da noite, eu era a única pessoa dentro do vagão. Ninguém morava praqueles lados e aqueles que moravam, por alguma razão, não eram de voltar muito tarde ou nem iam para Manhattan ou não sei. E muitas vezes eu tinha o trem inteiro pra mim.

Quando Hannah, no episódio e na cena que encerram a primeira temporada de Girls, volta pra casa, dorme e vai parar na última estação, justamente a de Coney Island, não tive como não me identificar. Ela está triste, sozinha, no meio da noite, "on her own", como diz a canção que Michael Penn fez especialmente para essa cena final - "on her way".

Gravei meio amadoramente a última cena da temporada, com a música, a Hannah no metrô e tudo o mais. Se você não gosta de spoilers, não veja o vídeo que compartilho abaixo. Não que vá ter muitos e não mais do que eu já contei até aqui. A cena é muito bonita e com uma sensibilidade que é difícil de se ver nas séries - à exceção de Mad Men.

On my own. Esse é o clube do qual também faço parte, Hannah. On my own no ônibus, no trem, na vida.



13.6.12

Nemrod

O cachorrinho era de veludo quente e palpitante com um pequeno e apressado coração. Tinha duas macias pétalas de orelha, olhos azulados e turvos, um focinho rosado, em que se podia colocar o dedo sem nenhum perigo, patinhas delicadas e inocentes com uma comovente verruga cor-de-rosa em cima e detrás das patas dianteiras. Com elas entrava na tigela de leite, guloso e impaciente, sorvendo o líquido com a língua rosada; saciada a fome, levantava tristemente o focinho com um pingo de leite no queixo e retirava-se, todo desajeitado, desse banho lácteo.

[...]

Mas pouco a pouco o pequeno Nemrod (esse é o nome orgulhoso e guerreiro que tinha recebido) começa a saborear a vida. A submissão total à imagem da união primordial materna cede lugar aos encantos da diversidade.

| Bruno Schulz e sua linda declaração de amor aos cachorros

4.5.12

Pequenas heresias

Carne com leite, kosher com treifa, judeu com goy. Não se deve misturar dois universos distintos.

Aqui em casa, no entanto, funciona tudo ao contrário.


2.5.12

O unicórnio e a literatura

Um texto que resume bem o que é a literatura. 

Universalmente se admite que el unicornio es un ser sobrenatural y de buen agüero; así lo declaran las odas, los anales, las biografías de varones ilustres y otros textos cuya autoridad es indiscutible. Hasta los párvulos y las mujeres del pueblo saben que el unicornio constituye un presagio favorable.

Pero este animal no figura entre los animales domésticos, no siempre es fácil encontrarlo, no se presta a una clasificación. No es como el caballo o el toro, el lobo o el ciervo. En tales condiciones, podríamos estar frente al unicornio y no sabríamos con seguridad que lo es. Sabemos que tal animal con crin es caballo y que tal animal con cuernos es toro.

No sabemos como es el unicornio.

[Borges citando um autor chinês do século IX em Otras Inquisiciones]