No Êxodo, há um episódio singular que define a imagem do Deus dos antigos hebreus e que se tornou uma das bases para a concepção divina dentro do judaísmo. De quem é, de fato, Deus. Moisés pergunta a Deus qual é o Seu nome, como deve referir-se a essa imagem que lhe faz tantos pedidos, que lhe traz tantos infortúnios. E a resposta, na forma verbal imperfeita de um hebraico bíblico cheio de desafios linguísticos, é apenas um "Sou o que sou".
O Deus hebraico (que viria a tornar-se o judaico), ao não revelar o Seu nome, indica um pouco de sua essência multiforme e que demanda constante exegese e investigação. E adiciona, em torno de três palavras (ehyeh asher ehyeh), mais uma das derivações do todo misterioso tetragramaton, que jamais pode ser evocado e que consiste de quatro letras: yod, he, váv, he. Ou י ה ו ה.
Ao longo de todo o Antigo Testamento, veremos a repetição deste estranho e poderoso nome de Deus, junto com variantes, dentre as quais se destacam Ha Shem (ou "o nome") e Adonai (algo como "senhor"). São sete as principais variantes, mas que se formam junto com outros elementos sintáticos e multiplicam as maneiras de referir-se a Ele. Cabalisticamente, há um enorme misticismo em torno de todas essas junções de letras hebraicas que variam em momentos diferentes da Torá. Os referentes matemáticos da língua hebraica permitem fazer as mais distintas interpretações, chegando até a expressão que representa a espiral do infinito, o Ein Sof (algo como "sem fim"). Deus é eterno, sem fim, tal qual Seu mistério.
Esta breve, e bem amadorística, introdução teológica serve para contextualizar a leitura judaica que farei de uma das músicas do novo disco do Vampire Weekend, Modern Vampires of the City. "Ya Hey" é a décima música e, na minha percepção, encerra, junto com "Hudson" e "Young Lion", a temática de desesperança do álbum. De uma falta de algo palpável na busca por Deus, em especial o deus que está registrado nos domínios do Antigo Testamento.
"Ya Hey" tem uma letra bastante explícita à Bíblia: Sião, Babilônia e o próprio refrão "Eu sou o que eu sou" indicam isso.
Oh, sweet thing,
Zion doesn't love you
And Babyon don't love you
But you love everything.
Through the fire, through the flames
Ya Hey
You won't even say your name
Only "I am that I am"
But who could ever live that way?
Estes são a primeira estrofe e o refrão de uma música cheia de questionamentos existenciais, para não adentrar direto pela porta teológica ou judaica. Ninguém te ama ou te considera neste mundo, então por que você perde tempo gostando, amando, ou se apegando a tudo? Há um traço de ressentimento quando se expõe a situação injusta de viver em um mundo sem nada para apegar-se, em que tudo está eternamente em danação, em um cenário típico do Antigo Testamento, e da maneira como a humanidade se encontra desolada até a chegada do Messias.
O episódio, no Êxodo, que abre este post no primeiro parágrafo também revela um povo que precisa de libertação. Moisés, líder do povo hebreu na fuga do Egito, primeiramente falou com Deus através de uma chama de fogo que ardia duma sarça. A sarça somente ardia no fogo, mas não se queimava (through the fire, through the flames). Deus então se apresenta como o "Deus de teu pai, de Abraão, Isaque, Jacó" e revela que Moisés é quem vai livrar os hebreus das mãos dos egípcios. E, nos versículos 13 e 14 do terceiro capítulo, um dos diálogos mais fundamentais da Torá:
Eis que quando for aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?
E disse Deus a Moisés: Eu sou o que sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu sou me enviou a vós.
I am that I am. You won't even say your nome. Que redenção podemos esperar de um Deus que nos responde algo tão banal? Que sequer revela a sua identidade, em um contexto, é preciso lembrar, repleto de deuses do antigo Oriente, mesopotâmicos, hititas, egípcios, canaanitas (sem mencionar os gregos). É um Deus que se posiciona dentre as divindades antigas ("o Deus de Abraão, Isaque, Jacó"), mas não diz o nome.
Erich Auerbach, no primeiro capítulo de seu clássico livro Mímesis, distingue o mito hebraico do mito grego. Enquanto a sintaxe (e mesmo o vocabulário) de um não responde a um critério rigoroso da linguagem e da precisão da mensagem, o estilo poético do segundo consagra uma forma ocidental de descrever seus mitos, suas religiões, suas crenças, ânsias. Enfim, suas histórias. O texto hebraico não se preocupa com tal precisão e até rebuscamento ou estilo. Parece ter um sentido simbólico e, como querem os cabalistas, matemático, de uma cosmogonia ou um gênese que se resolve por exegese, interpretação e muito estudo. Daí a base do judaísmo ser "o livro", ou o estudo constante e infinito deste livro, a Torá. Mais importante do que qualquer outra coisa para um judeu é estudar a Torá. E não frustrar-se com sua linguagem, com seus mistérios e com a falta de sentido de um Deus punitivo que se dirige aos homens com desvios sintáticos e semânticos dos mais absurdos.
Voltando à "Ya Hey", a letra enumera uma lista de elementos que não amam de volta o personagem a quem a música é dedicada. Sião, Babilônia, Estados Unidos, os que têm fé, os que não a têm. Recupera um sentido bíblico a uma contemporaneidade com suas inúmeras referências também sem sentido. Os israelitas, que poderiam ser mais uma explicitação da Bíblia ou do judaísmo, se transformam em outra coisa, pois, ao lado de "19th Nervous Breakdown" (sucesso dos Rolling Stones nos anos 60), viram música. É a canção "Israelites" de Desmond Deckker, um dos pioneiros da ska-music (também dos anos 60).
Mas o que me deixou mesmo intrigado - e o que me fez escrever este longo post - foi o próprio nome da música. Notei esses dias que é possível ler o Ya Hey como uma espécie de acrônimo do tetragramaton, que mencionei lá em cima. As letras hebraicas yod e he que, quando Deus reitera a Moisés o Seu nome, ele apenas diz "Eu sou" (sem o "o que sou"). Duas letrinhas hebraicas. Yod e he.
Musicalmente, mais uma vez, Ezra Koenig, o compositor principal do Vampire Weekend, transforma em "Ya Hey". Como fez com os israelitas, que virou um hit de reggae-ska, como fez com a Babilônia, que virou o cotidiano moderno de sua Nova York, esta também reflexo de diversidades e frustrações, a mesma frustração que dá o tom a Modern Vampires of the City, que parece homenagear a cidade.
A sequência com "Hudson", uma marchinha marcial ao rio que separa Manhattan do continente americano e que, do sul ao norte da ilha, percorre as inúmeras diferenças da cidade (de Battery e Tribeca, passando pelo Chelsea e Village, ao Upper West e ao limite com o Bronx), e com "Young Lion" fecha um disco marcado por uma sensação de desconforto, que o grupo já trazia em momentos dos anteriores, como "Taxi Cab" e "Contra" (do anterior) e "I Stand Corrected" (do primeiro álbum).
Ouça a música na íntegra abaixo em um lyric video que a banda fez recentemente para promover o álbum.
O Deus hebraico (que viria a tornar-se o judaico), ao não revelar o Seu nome, indica um pouco de sua essência multiforme e que demanda constante exegese e investigação. E adiciona, em torno de três palavras (ehyeh asher ehyeh), mais uma das derivações do todo misterioso tetragramaton, que jamais pode ser evocado e que consiste de quatro letras: yod, he, váv, he. Ou י ה ו ה.
Ao longo de todo o Antigo Testamento, veremos a repetição deste estranho e poderoso nome de Deus, junto com variantes, dentre as quais se destacam Ha Shem (ou "o nome") e Adonai (algo como "senhor"). São sete as principais variantes, mas que se formam junto com outros elementos sintáticos e multiplicam as maneiras de referir-se a Ele. Cabalisticamente, há um enorme misticismo em torno de todas essas junções de letras hebraicas que variam em momentos diferentes da Torá. Os referentes matemáticos da língua hebraica permitem fazer as mais distintas interpretações, chegando até a expressão que representa a espiral do infinito, o Ein Sof (algo como "sem fim"). Deus é eterno, sem fim, tal qual Seu mistério.
Esta breve, e bem amadorística, introdução teológica serve para contextualizar a leitura judaica que farei de uma das músicas do novo disco do Vampire Weekend, Modern Vampires of the City. "Ya Hey" é a décima música e, na minha percepção, encerra, junto com "Hudson" e "Young Lion", a temática de desesperança do álbum. De uma falta de algo palpável na busca por Deus, em especial o deus que está registrado nos domínios do Antigo Testamento.
"Ya Hey" tem uma letra bastante explícita à Bíblia: Sião, Babilônia e o próprio refrão "Eu sou o que eu sou" indicam isso.
Oh, sweet thing,
Zion doesn't love you
And Babyon don't love you
But you love everything.
Through the fire, through the flames
Ya Hey
You won't even say your name
Only "I am that I am"
But who could ever live that way?
Estes são a primeira estrofe e o refrão de uma música cheia de questionamentos existenciais, para não adentrar direto pela porta teológica ou judaica. Ninguém te ama ou te considera neste mundo, então por que você perde tempo gostando, amando, ou se apegando a tudo? Há um traço de ressentimento quando se expõe a situação injusta de viver em um mundo sem nada para apegar-se, em que tudo está eternamente em danação, em um cenário típico do Antigo Testamento, e da maneira como a humanidade se encontra desolada até a chegada do Messias.
O episódio, no Êxodo, que abre este post no primeiro parágrafo também revela um povo que precisa de libertação. Moisés, líder do povo hebreu na fuga do Egito, primeiramente falou com Deus através de uma chama de fogo que ardia duma sarça. A sarça somente ardia no fogo, mas não se queimava (through the fire, through the flames). Deus então se apresenta como o "Deus de teu pai, de Abraão, Isaque, Jacó" e revela que Moisés é quem vai livrar os hebreus das mãos dos egípcios. E, nos versículos 13 e 14 do terceiro capítulo, um dos diálogos mais fundamentais da Torá:
Eis que quando for aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?
E disse Deus a Moisés: Eu sou o que sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu sou me enviou a vós.
I am that I am. You won't even say your nome. Que redenção podemos esperar de um Deus que nos responde algo tão banal? Que sequer revela a sua identidade, em um contexto, é preciso lembrar, repleto de deuses do antigo Oriente, mesopotâmicos, hititas, egípcios, canaanitas (sem mencionar os gregos). É um Deus que se posiciona dentre as divindades antigas ("o Deus de Abraão, Isaque, Jacó"), mas não diz o nome.
Erich Auerbach, no primeiro capítulo de seu clássico livro Mímesis, distingue o mito hebraico do mito grego. Enquanto a sintaxe (e mesmo o vocabulário) de um não responde a um critério rigoroso da linguagem e da precisão da mensagem, o estilo poético do segundo consagra uma forma ocidental de descrever seus mitos, suas religiões, suas crenças, ânsias. Enfim, suas histórias. O texto hebraico não se preocupa com tal precisão e até rebuscamento ou estilo. Parece ter um sentido simbólico e, como querem os cabalistas, matemático, de uma cosmogonia ou um gênese que se resolve por exegese, interpretação e muito estudo. Daí a base do judaísmo ser "o livro", ou o estudo constante e infinito deste livro, a Torá. Mais importante do que qualquer outra coisa para um judeu é estudar a Torá. E não frustrar-se com sua linguagem, com seus mistérios e com a falta de sentido de um Deus punitivo que se dirige aos homens com desvios sintáticos e semânticos dos mais absurdos.
Voltando à "Ya Hey", a letra enumera uma lista de elementos que não amam de volta o personagem a quem a música é dedicada. Sião, Babilônia, Estados Unidos, os que têm fé, os que não a têm. Recupera um sentido bíblico a uma contemporaneidade com suas inúmeras referências também sem sentido. Os israelitas, que poderiam ser mais uma explicitação da Bíblia ou do judaísmo, se transformam em outra coisa, pois, ao lado de "19th Nervous Breakdown" (sucesso dos Rolling Stones nos anos 60), viram música. É a canção "Israelites" de Desmond Deckker, um dos pioneiros da ska-music (também dos anos 60).
Mas o que me deixou mesmo intrigado - e o que me fez escrever este longo post - foi o próprio nome da música. Notei esses dias que é possível ler o Ya Hey como uma espécie de acrônimo do tetragramaton, que mencionei lá em cima. As letras hebraicas yod e he que, quando Deus reitera a Moisés o Seu nome, ele apenas diz "Eu sou" (sem o "o que sou"). Duas letrinhas hebraicas. Yod e he.
Musicalmente, mais uma vez, Ezra Koenig, o compositor principal do Vampire Weekend, transforma em "Ya Hey". Como fez com os israelitas, que virou um hit de reggae-ska, como fez com a Babilônia, que virou o cotidiano moderno de sua Nova York, esta também reflexo de diversidades e frustrações, a mesma frustração que dá o tom a Modern Vampires of the City, que parece homenagear a cidade.
A sequência com "Hudson", uma marchinha marcial ao rio que separa Manhattan do continente americano e que, do sul ao norte da ilha, percorre as inúmeras diferenças da cidade (de Battery e Tribeca, passando pelo Chelsea e Village, ao Upper West e ao limite com o Bronx), e com "Young Lion" fecha um disco marcado por uma sensação de desconforto, que o grupo já trazia em momentos dos anteriores, como "Taxi Cab" e "Contra" (do anterior) e "I Stand Corrected" (do primeiro álbum).
Ouça a música na íntegra abaixo em um lyric video que a banda fez recentemente para promover o álbum.









