23.8.11

João Almino

João Almino recebeu nesta terça-feira o Prêmio Passo Fundo de Literatura com o seu "Cidade Livre". Escrevi sobre o romance em julho do ano passado no Trópico e troquei umas palavras com o autor. Vale relembrar aqui.

18.8.11

A Árvore da Vida

Há um conceito em hebraico chamado "ein sof" (אין סוף), que dá para traduzir e interpretar de diversos modos, mas via de regra significa "sem fim". A primeira vez que ouvi falar nele não foi com um rabino, mas com um psicanalista em uma conversa casual sobre Franz Kafka, muito antes de eu pensar em fazer meu mestrado sobre ele.

Ele me disse que boa parte dos textos do autor tcheco gira em uma espiral que, além de aniquilar qualquer possibilidade de figuração metafórica, suga o próprio narrador (e o leitor, por consequência) a um centro nervoso. Dali se espalham vários fragmentos que, quando expelidos, se juntam nessa espécie de furacão textual de novo. E para sempre. E sem volta. É a volta ritual da amazona frágil e tísica com seu cavalo em "Na Galeria", por exemplo, em um dos contos mais explícitos desta estrutura kafkiana.

O realismo de Kafka, mesmo que absurdo e repleto de imagens de um expressionismo bizarro e maníaco, não permite metáfora. O inseto Gregor Samsa é somente um inseto, como afirmou Roberto Schwarz em "Uma barata é uma barata é uma barata", ensaio de 65 que promoveu a discussão séria sobre o autor no Brasil.

O que Kafka, a noção de "ein sof" e a aniquilação da metáfora têm a ver com A Árvore da Vida, novo filme de Terrence Malick, que assisti na última sexta-feira (12)? Kafka passa longe, nenhum cruzamento possível. Mas o modo que o leio há muito tempo, dentro dessa linha de pensamento que apresentei acima, vale para o longa-metragem.

Confesso que demorei pra refletir algo sobre a produção e, por consequência, para me arriscar a escrever algo. O filme é denso, todo fragmentado em cacos de significação que ligam momentos diferentes da família O'Brien e da própria humanidade. Ilustrados por essa família de cinco membros (depois, com a perda de um dos filhos, quatro), a noção de existência é esmiuçada desde os primórdios, quando uma explosão inicial e misteriosa deu origem à vida, passando pelos primeiros organismos aquáticos, pelos dinossauros, até chegarmos ali, em uma pequena cidade de Texas nos anos 50, onde tudo vai acontecer.

Não é um filme fácil, não porque exija algum tipo de intelecto cinematográfico ou porque seja experimental, mas porque nos deixa atônitos, sem saber o que pensar e como reagir. E essa falta de reação que temos diante do filme, pelo menos a que eu tive, é um espelho de como somos tão frágeis, tal qual a amazona tísica do conto kafkiano, diante de um mundo cheio de mistérios, dúvidas, imagens as mais variadas e bizarras possíveis, e principalmente diante de um deus que não nos responde e é mau.

Acompanhar o drama dos O'Brien e especialmente do filho mais velho, na figura de Sean Penn que se perde em memórias de sua infância, é sermos sugados pelo universo de significação fechado e que não permite saída para qualquer lado fácil da metáfora, da figura de linguagem que está na literatura para resolver todo e qualquer enigma. Não dá. Os enigmas de A Árvore da Vida vão nos levando cada vez mais para dentro desse buraco. Vamos afunilando, sendo pressionados entre muitas imagens diversas de uma memória humana.

Sonho entra em choque com a realidade: lembra-se da mãe, "cheia de graça", ali no jardim, mas ela levita, flutua, em uma cena de arrepiar qualquer menino que tenha lido a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Como mágica também, graça entra em choque com a natureza, que não é boa, que destrói, que extermina aqueles que a habitam e promove o caos sobre a Terra: no entanto, o jardim de girassol é estupendo e a erupção de um gêiser lava a nossa alma. E, por fim, D'us entra em choque com Jó, citado no começo do filme e que serve de mote para a produção: a cada dúvida ou desconfiança humana, a ira divina que responde com "criação". E é a própria imagem divina que tem a palavra na epígrafe.

Onde você estava quando as estrelas d'Alva juntas cantavam, 
e todos os filhos de D'us rejubilavam?

Ao fim, depois de termos sido levados até o extremo onde todos os elementos se juntam, somos então expelidos. É quando o filho reencontra os pais em uma experiência religiosa, do "religare", e o irmão morto e todos aqueles que fazem parte desse jogo sem sentido, ou seja, todos nós. Sem faces, não identificados, mas todos nós caminhando, ou retornando, a um desconhecido, que em inglês há uma expressão imbatível: the great beyond.

Algum dia você vai cair e chorar. E vai entender tudo. Todas as coisas.

12.8.11

Watch the Throne

Maçaricos, garotas presas pelo cinto de segurança no banco de trás de um carro todo "montado" que sai em alta velocidade.

Mais: "Try a Little Tenderness" do Otis Redding sampleada, nenhum refrão, nenhum convidado fazendo nenhuma intervenção, só duas vozes trocando miniversos na mesma velocidade da discussão de dois vizinhos em alguma rua de Bedford-Stuy no Brooklyn. Mais ainda: um clipe feito por Spike Jonze em que Aziz Ansari faz uma participação especial.

E um disco feito com a ganância de quem quer retomar o trono do hip-hop nos Estados Unidos. Jay-Z e Kanye West. Não tem como não revolucionar.

7.8.11

Melancolia

Em 1947, o dramaturgo Jean Genet lançava sua peça "As Criadas". Na história, acusada de ser violenta e cruel demais, Solange e Claire simulavam, em constante e hipnótica troca de papéis, a relação patrão-empregado. Na ausência da patroa, referenciada apenas como Madame, elas buscavam uma maneira de se vingar da opressão diária a que estavam submetidas. A suposta porta de escape, que deveria libertá-las e promover o caos social frente à burguesia francesa, só poderia ser alcançada via representação e via subversão da relação de poder. No entanto, a satisfação se revela incompleta e só passa a justificar mais a tirania da sociedade pós-Revolução Industrial. Não há final feliz.

Passado mais de meio século, o cineasta Lars von Trier realiza o filme "Melancolia", que fui assistir ontem. Não sabia que a inspiração para o longa tinha sido essa peça de Genet e confesso que não notei, em uma primeira análise, nenhuma ligação entre as duas obras. Aqui, Justine e Claire são duas irmãs em conflito que não conseguem se entender nem mesmo no dia do casamento da primeira. Claire e o marido preparam uma festa luxuosa, gastam muito dinheiro, e nada basta para tirar Justine da visível depressão que ela está sofrendo.

Há então um jogo de representação, agora eu consigo enxergar, muito parecido ao de "As Criadas". O que antes era uma classe social que precisava ser derrubada, agora há um mal abstrato do qual precisam se livrar, reverter a equação. Pode ser a depressão de Justine, que arruina a todos que estão a sua volta. A saber: o noivo que não tem seu amor correspondido, o patrão que não consegue o seu "slogan", o cunhado que tem de aturar a sua presença e ainda gastar muito dinheiro com isso, a irmã que não tem permissão para fechar a esperada representação.

O planeta Melancolia, que se aproxima enorme da Terra e vai se colidir com todos nós, não é apenas uma imagem poética ou metáfora para a depressão de Justine. Ele é real e, desde o prelúdio do filme, sabemos que não teremos chance, que "the end is near".

Nos 130 minutos do filme, somos testemunha daquela família que vai morrer. É horrível, dá angústia. E dá muito medo. Vemos os cavalos no celeiro se debatendo com aquela estranha presença planetária se aproximando, vemos o cunhado optando pelo suicídio e sendo enterrado com feno, vemos a impotência de Claire e o tormento de Justine.

As duas, à moda de "As Criadas", falham na representação, na troca de papéis com o mal interplanetário, na subversão que não se realiza. E, claro, não sobrevivem e a "caverna" (ou cabana) construída para encerrar a encenação não as protege do fim trágico.

Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland vivendo o trio que representa toda a humanidade, "Melancolia" é um filme sensível, sem violência, sem imagens chocantes - como foi o caso de "Anticristo". Desvela a máscara que precisamos vestir em uma esfera familiar e que cai quando se aproxima um mal súbito que não podemos ignorar.

O silêncio quase fúnebre ao fim da sessão, inclusive o meu, é a realidade que chega e nos dá um soco no estômago. Claire se debate em completo desespero quando o planeta Melancolia enfim destrói a Terra. Não há como compactuar com essa ameaça, não há como compactuar com o delírio depressivo de Justine, não há como lidar com o suicídio covarde de John. A Madame, de Genet, é morta porque não há como inverter factualmente a relação entre elas - vingar-se pela morte não resolve. E o mesmo fracasso ocorre em "Melancolia", como visão pessimista de que não é possível inverter o jogo e superar o quadro depressivo de uma pessoa.

Na qualidade explícita e pesada de uma depressão gigante, o planeta não pode ser desviado ou servir de câmbio para uma troca que, segundo os cientistas, seria não só mais justa, mas também possível. E não, nunca é possível, diz Lars von Trier inspirado por Genet.

5.8.11

Heaven is a place on Earth with you

Descobri hoje essa cantora nova-iorquina chamada Lana del Rey. O que dizer de uma música chamada "Video Games" e um clipe cheio de referências à Disney (especialmente ao clássico "Fantasia") e à geração de ouro de Hollywood? Love at first sight, Lana.

It's you, it's you, it's all for you. Everything I do.
I tell you all the time Heaven is a place on Earth with you.
Tell me all the things you want to do.
I heard that you like the bad girls. Honey, is that true?
It's better than I ever even knew.
They say that the world was built for two, only worth living if somebody is loving you.
Baby, now you do.