24.4.14

O detetive

Não há figura mais solitária, de completo isolamento social, na literatura, ou nos filmes, que o detetive. Com suas combinações, estratégias e caderninhos repletos de detalhes da vida alheia, seus objetos de estudo e investigação, traça perfis a lápis que denotam o nariz romano de determinada mulher que sai de casa todo dia às 9 da manhã mas nunca tem horário certo para voltar. Ou a magreza daquele marido que antes de partir com o carro em direção ao trabalho passa alguns minutos de frente ao volante olhando para o vazio, de dentro de sua garagem. São estudos físicos e comportamentais da psique humana que terminam por prender o detetive a esse amontoado de notas no papel. Descolado da vida e do contato social, mergulha na ficção alheia como se fosse a própria; no entanto, está sempre sozinho, a distância, escondido atrás do poste, invisível e inexistente. Um fantasma. 

30.3.14

You must roar

You must roar


— Sim, tem que ir vestido de Chewbacca!
— Que legal! E começa quando?
Uma quarta-feira de muito vento em Nova York. O inverno já tinha passado, mas as temperaturas hesitavam em subir com rajadas de vento de até oitenta quilômetros por hora. Se você quer testar seus limites, caminhe por downtown Manhattan, pelas ruas de Tribeca, próximo ao rio Hudson, num dia de ventania, assim pensava Tom Rosenthal enquanto trocava mensagens de texto com a namorada, no extremo sul do continente americano.
Na semana seguinte serviria docinhos e salgadinhos kosher em um bufê judaico de New Jersey, cidade ao qual acabara de voltar com a ótima notícia. Um bom salário, quatro vezes por semana apenas, meio período, e com chances muito grandes de render boas histórias para o livro que estava escrevendo. Vê-se de tudo em festas de bar mitsvás: pais bêbados, outros cheirando cocaína no banheiro, avós tendo ataques cardíacos, crianças americanas mimadas querendo lambuzar-se mais e mais de marshmallow. Sempre tem uma ambulância estacionada no local.  
Como toda festa infantil a família, ou o jovem adulto de 13 anos, escolhe o tema. Star Wars era o grande hit. Depois de tantas décadas, a saga de George Lucas continua a motivar os sonhos jedis de juntar-se à Força de crianças do mundo inteiro. No caso de família judias, havia quase uma fixação por Star Wars. Tom fora informado pelo diretor do bufê naquele dia que a cada dez bar mitsvás nove eram celebrando a saga de Luke Skywalker. E os garçons se vestem de Chewbacca. Os homens. As meninas, judias russas magras e espetaculares com pouco inglês, vestem-se de Princesa Lea. No entanto, “nos últimos anos, temos investido mais em Amidala que Princesa Lea. Natalie Portman tem mais apelo aos jovens que Carrie Fisher, mesmo com a tal cena do Jabba the Hutt”, dizia Marco Basla, judeu, americano, italiano, responsável pelo RH do bufê. Ele contava isso com malícia, enquanto Tom reproduzia em sua mente Carrie Fisher sendo puxada com força pelo pescoço das mãos (mãos?) nojentas de Jabba. Calcinha dourada, barriga à mostra, pernas levemente entreabertas. Queria ser Jabba the Hutt no bufê para dominar alguma Carrie Fisher caipira e branquinha de New Jersey. Mas não revelou seu pensamento a Marco.
— You must roar, brincava Marco.
Chewbacca era um ídolo de sua infância, embora Jabba tivesse esse apelo sexual que marcara sua adolescência. Chewbacca era um Pateta com mais carisma. Um Pluto bípede. Que atirava nos soldados da Guarda de Darth Vader. E que tinha ótimas habilidades para pilotar, Han Solo, seu melhor amigo, que o diga. Quando satisfeito, urrava. Quando bravo, urrava. Feliz, triste, urrava. Sempre o mesmo grunhido. E agora Chewbacca teria de rugir também ao passar pela festa com canapés. Chewbacca era legal porque encarava tudo sempre com uma única e adorável reação: mmmmoooorrrrhhhh.
No dia seguinte, não ventava tanto em Nova York, mas chovia. Com seu guarda-chuva, Tom se encaminhava ao campus da Columbia University, onde encontraria um amigo professor de lá. Quando recebeu o telefonema de Marco You Must Roar Carrie Fisher Almost Naked Beaten by Jabba but Natalie Portman is Trendier Now Basla. Marco informava que ele havia perdido o trabalho por questões de documentos. Tom era apenas mais um estrangeiro com um passaporte aqui, não um cidadão americano. As contratações são difíceis aqui, explicava Basla que, pela voz ao telefone, soava mais e mais como um Jabba the Hutt. Tentamos, mas nosso advogado recomendou que não déssemos prosseguimento na contratação. Questões legais.
Tom sentiu-se capturado e congelado em carbonita, tal qual Han Solo, o melhor amigo do Chewbacca. E apenas disse “that’s OK, it is a long way to become a real Chewbacca”. Marco nem riu. Estava sério.
Desnorteado, Tom viu-se sozinho no meio do campus de Columbia. Aquelas célebres escadarias que davam acesso à antiga biblioteca de repente estavam vazias de gente. A estátua de Atena o encarava diante dos nomes de Homero, Heródoto, Sófocles, Aristóteles, Demóstenes, Cícero e Virgílio, da fachada da Butler Library. E Tom ali no meio sozinho, as pessoas tinham sumido. Viu os nomes dos clássicos sendo trocados por Luke, Han, Lando, Yoda, C-3PO, R2-D2, Ackbar. Sendo encarados agora por uma estátua enorme de Obi-Wan Kenobi cujos dizeres Alma Mater haviam sido trocados, não por um motivador “Use the Force, Luke”, mas por um inapropiado “I have a bad feeling about this”. E chovia.
Saiu do campus principal e continuou andando por uma Morningside Heights completamente abandonada e entregue, feito Tatooine. Entrou na casa onde morou Federico García Lorca, onde encontraria seu amigo professor. Hoje a casa pertence ao departamento de estudos hispânicos e lusófonos de Columbia. Sentou-se no sofá e avisou a namorada, no extremo sul do continente americano, que não seria mais Chewbacca. Que tinha dado errado.
Tom passou uns bons dez minutos olhando para a lareira onde Lorca provavelmente passava longas noites refletindo sobre os mais variados dramas da comédia humana. Os risíveis, os sensíveis, os que ficam para a posteridade, ou aqueles que se esvaem rapidamente com a ventania que vem de New Jersey, do outro lado do rio Hudson — ou com a ventania constante de Cloud City, que presenciamos no episódio V de Star Wars. O que Chewbacca faria agora? You must roar, Tom lembrou-se de Marco. Mas como se sequer tenho a fantasia? E era a casa de Lorca, imagine.
Foi quando seu amigo chegou, deu um tapinha em suas costas, e a vida impôs novamente suas demandas mais diárias e mais daninhas.

23.10.13

Barquinho

Soprou; o barquinho quase virou. Dizia então consigo: “o furacão bateu em cheio nos vaus de estibordo... arrancou os joanetes da proa e as forquetas... furou o único barco que temos... ele adernou tanto, que a amurada chegou a tocar na água...” Mas era coisa que cansava muito, continuar soprando assim, com tanta força. 

17.10.13

Morte por afogamento

No fim das contas, ele guardava muitas memórias. O problema é que não conseguia acessá-las mais e, por causa disso, não mais as possuía. São histórias que já não podem ser contadas, cujos traços insistem em ricochetear por todas as partes de seu cérebro que, mesmo vivo, não reconstrói mais nada. 

Não há muita coisa que a medicina pode fazer por quem sofre dessa condição, de quem vive entre os poucos segundos do agora ao que acabou de passar - se tenta mergulhar no passado, afogamento; se projeta pro futuro, cai no passado. Agarra-se então ao constante estado do presente absoluto.

2.10.13

Funes, o memorioso

Não sei se é uma espécie de afasia sintática ou combinada (que reconheço quando me expresso na fala) mas já faz mais de um ano que tenho lido quase tudo na internet, seja post de blog, matéria de portal, até textinhos pequenos no Facebook, de trás para a frente, ou de baixo para cima.

Eu vou descendo, lendo só as primeiras palavras de cada parágrafo, e quando chego lá no fim começo a ler tudo de baixo pra cima. Ou é índice de certa demência, da perda, ainda que moderada, da razão, conforme vou envelhecendo (faço 33 em março, ironicamente a "idade da razão") ou algum tique oriental, do de trás pra frente, pelo pouco que sei de hebraico e de iídiche e pela vontade de aprender japonês.

Mais irônico ainda é o fato de eu trabalhar com texto, com língua e com literatura. E a preocupação de que meu tempo nessa área está se esgotando. Quem sabe eu possa ter algum tipo de aposentadoria por invalidez e eu me volte aos números, como Funes, o memorioso, e seu sistema que enumera toda e qualquer arbitrariedade que vê pela frente. Sempre fui melhor em matemática que em qualquer língua mesmo. 

6.7.13

A morte espreita Don Draper



A revista Amarello já está nas bancas (e livrarias) e, para quem gosta dos temas Mad Men, morte e Freud, eu escrevi um texto nesta edição chamado "A morte espreita Don Draper". Um trecho:

"Se o luto faz com que o ego renuncie ao objeto, declarando-o morto e oferecendo-lhe como prêmio permanecer vivo, este parece ser o drama de Don Draper que encerra sua existência e move todos os motivos de Mad Men. Após a morte do verdadeiro Don, em batalha, só restava uma maneira de premiá-lo: sobrevivendo, essencialmente, como tal - quase como uma negação da negação da negação do luto e da morte. Como a queda do homem, representada na abertura do seriado, em uma imagem que pode ser tanto um suicídio como a celebração do rito da defenestração, em que remove-se alguém de cena para sobreviver."

Espero que todo mundo goste desta edição, que está muito bonita, e do que escrevi. Prometo que não falei muita besteira sobre a série nem sobre Don.

19.8.12

Morre Hirao, meu grande amigo

Neste domingo (19) recebi uma notícia muito triste. Roberto Hirao, o meu melhor amigo no jornalismo, morreu neste fim de semana.

Conheci o Hirao quando editei o livro que reunia 70 textos dele na Folha da Tarde, chamado "70 Lições de Jornalismo". Trabalhei junto com a Cleide Floresta, à época editora do caderno Show do Agora, e diretamente com o autor, que me ensinou muito mais do que aquelas 70 lições.



Ao longo das muitas páginas e da edição do livro, me tornei amigo do Hirao. Ele me ligava, mesmo falando com muita dificuldade e com uma voz extremamente baixa, para conversarmos sobre cinema, uma de suas paixões. Principalmente o cinema japonês. Muitas vezes a gente ia tomar um café ou comer qualquer coisa na cantina da Folha, que ficava no 10º andar do prédio ali da Barão de Limeira. Ele me contava muitas coisas e histórias do jornalismo, como o Miguel Arcanjo também relembra aqui, além de falar sobre detalhes de filmes etc.

Dei para ele dois filmes de presente: o "Zelig", do Woody Allen, e o "A Condição Humana", épico do Masaki Kobayashi com mais de 9 horas de duração, dividido em três partes. Lembro que, depois do presente, ele reviu o filme (um de seus preferidos) e escreveu uma crítica para a Ilustrada (pode ser lida aqui). Para um senhor com certa idade, com uma doença que dificultava funções básicas no jornalismo como falar e escrever, o texto era um presente para mim.

No lançamento do seu livro, cheguei atrasado no dia. Alguns colegas presentes no dia me contaram que o Hirao ficava perguntando pra eles: onde está o Thiago? E todos o confortavam dizendo que eu já estava chegando. Quando cheguei, vi o Hirao de longe com a família (que o ajudava a autografar os livros), e fiquei muito emocionado. A gente se abraçou, de um jeito meio atrapalhado, mas muito intenso. E fiquei com muita vontade de chorar no dia, choro que hoje não consegui controlar.

Jantei algumas vezes em seu apartamento em Perdizes. Conversávamos muito, ele me mostrava trechos de alguns filmes e alguns de seus cantores japoneses prediletos. Ele me mostrava detalhes do prédio, me apresentava os carros de alguns moradores ilustres, como o de Marcelo Rubens Paiva, "carro inteiramente adaptado pra ele poder dirigir", repetia Hirao.

Hoje é um dia muito triste. É o primeiro grande amigo que perco em minha vida.


23.7.12

Memória e enredos

Ao rever filmes, sempre constato duas coisas: (1) eu não lembro nada de enredo em filmes ou em livros; (2) isso deve dizer algo importante sobre a minha percepção da vida, das histórias e das pessoas que não me lembro se morreram, se já passaram antes ou depois do trem. 

Se isto é bom ou ruim, Freud jamais me confirmaria. A psicanálise vence por essas coisas, por te afundar mais em um mundo onde suas histórias pessoais e ficcionais são tão desordenadas como um redemoinho onde tudo se mistura e sua mente só se sai com passagens de ida, interrompidas por estações abandonadas ou turbulências desagradáveis. Não gostaria de ser assim, mas aprendi a aceitar o infortúnio mental.

27.1.12

He cast a look and went mad

A parábola é relatada no Talmud. Quatro sábios entraram em um jardim, que pode ser interpretado como o Paraíso ou um reino de sabedoria mística. Um desses sábios, Ben Azzai, "lançou um olhar" e morreu imediatamente - uma morte considerada sagrada. Ben Zoma fez o mesmo, mas enlouqueceu. Elisha ben Avuyah caiu no secularismo e se distanciou da fé judaica. Só o rabbi Akiva que saiu de lá ileso.

Ontem, visitei o Jewish Museum de NYC e encontrei esse quadro de Maurycy Minkowski que faz clara referência a esse "olhar perdido para fora" que trata o Talmud: pode matar, enlouquecer ou tirar a fé. Representa o iluminismo judaico na virada do século 18/19, quando a comunidade se volta para o que está fora - no caso, o personagem central que olha para fora do quadro e para o "espectador".

É um dos quadros mais bonitos e simbólicos da emancipação judaica na sociedade.