6.7.13

A morte espreita Don Draper



A revista Amarello já está nas bancas (e livrarias) e, para quem gosta dos temas Mad Men, morte e Freud, eu escrevi um texto nesta edição chamado "A morte espreita Don Draper". Um trecho:

"Se o luto faz com que o ego renuncie ao objeto, declarando-o morto e oferecendo-lhe como prêmio permanecer vivo, este parece ser o drama de Don Draper que encerra sua existência e move todos os motivos de Mad Men. Após a morte do verdadeiro Don, em batalha, só restava uma maneira de premiá-lo: sobrevivendo, essencialmente, como tal - quase como uma negação da negação da negação do luto e da morte. Como a queda do homem, representada na abertura do seriado, em uma imagem que pode ser tanto um suicídio como a celebração do rito da defenestração, em que remove-se alguém de cena para sobreviver."

Espero que todo mundo goste desta edição, que está muito bonita, e do que escrevi. Prometo que não falei muita besteira sobre a série nem sobre Don.

19.8.12

Morre Hirao, meu grande amigo

Neste domingo (19) recebi uma notícia muito triste. Roberto Hirao, o meu melhor amigo no jornalismo, morreu neste fim de semana.

Conheci o Hirao quando editei o livro que reunia 70 textos dele na Folha da Tarde, chamado "70 Lições de Jornalismo". Trabalhei junto com a Cleide Floresta, à época editora do caderno Show do Agora, e diretamente com o autor, que me ensinou muito mais do que aquelas 70 lições.



Ao longo das muitas páginas e da edição do livro, me tornei amigo do Hirao. Ele me ligava, mesmo falando com muita dificuldade e com uma voz extremamente baixa, para conversarmos sobre cinema, uma de suas paixões. Principalmente o cinema japonês. Muitas vezes a gente ia tomar um café ou comer qualquer coisa na cantina da Folha, que ficava no 10º andar do prédio ali da Barão de Limeira. Ele me contava muitas coisas e histórias do jornalismo, como o Miguel Arcanjo também relembra aqui, além de falar sobre detalhes de filmes etc.

Dei para ele dois filmes de presente: o "Zelig", do Woody Allen, e o "A Condição Humana", épico do Masaki Kobayashi com mais de 9 horas de duração, dividido em três partes. Lembro que, depois do presente, ele reviu o filme (um de seus preferidos) e escreveu uma crítica para a Ilustrada (pode ser lida aqui). Para um senhor com certa idade, com uma doença que dificultava funções básicas no jornalismo como falar e escrever, o texto era um presente para mim.

No lançamento do seu livro, cheguei atrasado no dia. Alguns colegas presentes no dia me contaram que o Hirao ficava perguntando pra eles: onde está o Thiago? E todos o confortavam dizendo que eu já estava chegando. Quando cheguei, vi o Hirao de longe com a família (que o ajudava a autografar os livros), e fiquei muito emocionado. A gente se abraçou, de um jeito meio atrapalhado, mas muito intenso. E fiquei com muita vontade de chorar no dia, choro que hoje não consegui controlar.

Jantei algumas vezes em seu apartamento em Perdizes. Conversávamos muito, ele me mostrava trechos de alguns filmes e alguns de seus cantores japoneses prediletos. Ele me mostrava detalhes do prédio, me apresentava os carros de alguns moradores ilustres, como o de Marcelo Rubens Paiva, "carro inteiramente adaptado pra ele poder dirigir", repetia Hirao.

Hoje é um dia muito triste. É o primeiro grande amigo que perco em minha vida.


23.7.12

Memória e enredos

Ao rever filmes, sempre constato duas coisas: (1) eu não lembro nada de enredo em filmes ou em livros; (2) isso deve dizer algo importante sobre a minha percepção da vida, das histórias e das pessoas que não me lembro se morreram, se já passaram antes ou depois do trem. 

Se isto é bom ou ruim, Freud jamais me confirmaria. A psicanálise vence por essas coisas, por te afundar mais em um mundo onde suas histórias pessoais e ficcionais são tão desordenadas como um redemoinho onde tudo se mistura e sua mente só se sai com passagens de ida, interrompidas por estações abandonadas ou turbulências desagradáveis. Não gostaria de ser assim, mas aprendi a aceitar o infortúnio mental.

27.1.12

He cast a look and went mad

A parábola é relatada no Talmud. Quatro sábios entraram em um jardim, que pode ser interpretado como o Paraíso ou um reino de sabedoria mística. Um desses sábios, Ben Azzai, "lançou um olhar" e morreu imediatamente - uma morte considerada sagrada. Ben Zoma fez o mesmo, mas enlouqueceu. Elisha ben Avuyah caiu no secularismo e se distanciou da fé judaica. Só o rabbi Akiva que saiu de lá ileso.

Ontem, visitei o Jewish Museum de NYC e encontrei esse quadro de Maurycy Minkowski que faz clara referência a esse "olhar perdido para fora" que trata o Talmud: pode matar, enlouquecer ou tirar a fé. Representa o iluminismo judaico na virada do século 18/19, quando a comunidade se volta para o que está fora - no caso, o personagem central que olha para fora do quadro e para o "espectador".

É um dos quadros mais bonitos e simbólicos da emancipação judaica na sociedade.