28.7.12

Registering madness


Deixe sua terra, a casa de seu pai, seu status, sua propriedade. E saia. D'us nunca foi muito claro com ninguém no Antigo Testamento. Sair pra onde? Sem resposta, apenas o som do vento que não indicava direção alguma. E Abrão (antes ainda de virar Abraão) saiu. 


Não acredito em D'us, mas sou apaixonado por suas histórias, o que talvez, a partir de determinada idade, me tenha feito descobrir a ficção e me apegado a ela em substituição ao que eu via em casa, na rua, na escola. E essa história, bastante introdutória na Bíblia e que já indiciava a figura misteriosa e absurda dessa divindade, não sai da minha cabeça. Como alguém cumpre ordens que podem ser fruto de uma esquizofrenia e sai assim de casa, sem saber sequer pra onde ir. No deserto. Me inspira e se renova constantemente como razão de viver. 

Não vou sair de casa definitivamente. Não vou andar pelo deserto até morrer de sede. Sei pra onde vou e sei quando volto e pra onde volto e pra quem eu volto. No entanto, cada período que passo em Nova York, curto ou longo, sozinho ou acompanhado, é cheio de mistério como a busca de Abrão pela voz misteriosa que o guia na imensidão de si mesmo, do que viria a ser Israel, do mundo e, em última instância, de D'us, representado figurativamente pela imagem do deserto cheio de tempestades de areia e pouca perspectiva. Pouca mesmo. 

Desde a primeira vez, vou lá para tentar me encontrar e achar qualquer sentido para a minha vida. Não descobri até hoje algo que substitua como ferramenta e como meio e, por isso, continuo indo lá. Na primeira vez, fui para morar. A partir da segunda, fui algumas vezes para passar dois ou três dias e, outras vezes, para passar um período maior. A partir da segunda vez, a viagem e a minha busca são pintadas pela cor ora ingrata ora reveladora da memória.

Como uma caça aos fantasmas do passado, a cada esquina, seja de Manhattan, do Brooklyn ou do Bronx. Nunca cataloguei a quantidade dessas espectros assustadores que me atormentam de noite, mas não são poucos. E considero batalha vencida cada reencontro com eles. Crio reflexões e ensinamentos que me ajudam a viver melhor comigo mesmo, a me entender, a tentar resolver o quebra-cabeça da vida. Fecho portas e caminho adiante, esperando a visita de mais um monstro que me quer me passar nova rasteira ao virar determinada esquina. 

Everybody needs his memories. They keep the wolf of 
insignificance from the door.
Saul Bellow em Mr. Sammler's Planet


23.7.12

Memória e enredos

Ao rever filmes, sempre constato duas coisas: (1) eu não lembro nada de enredo em filmes ou em livros; (2) isso deve dizer algo importante sobre a minha percepção da vida, das histórias e das pessoas que não me lembro se morreram, se já passaram antes ou depois do trem. 

Se isto é bom ou ruim, Freud jamais me confirmaria. A psicanálise vence por essas coisas, por te afundar mais em um mundo onde suas histórias pessoais e ficcionais são tão desordenadas como um redemoinho onde tudo se mistura e sua mente só se sai com passagens de ida, interrompidas por estações abandonadas ou turbulências desagradáveis. Não gostaria de ser assim, mas aprendi a aceitar o infortúnio mental.

16.7.12

Sobre a Granta brasileira

Ao passar o olho nos contos que não foram selecionados para a tal Granta brasileira (publicados no blog Off Granta), reconheço que aquilo que se encontra impresso na revista oficial é de fato o melhor material que o Brasil pode oferecer. 

É como, no boxe, o Maguila ter derrubado fácil o Johnny Nelson, em Osasco (em 95). Mas continua sendo o Maguila, sujeito que até humorista já foi. E o chão da comparação continua sendo Osasco.