Algumas pessoas têm suas conduções, seus ônibus, suas linhas de metrô, como parte de suas vidas. Me incluo nesse grupo.
Há um ônibus que sempre fez parte da minha: o 177-H (Butantã USP - Horto Florestal). Eu peguei essa mesma linha por exatos nove anos de minha vida. Foi o ônibus que me levou até a Etesp no colegial (na verdade, me levou até a estação de metrô, de onde eu me encaminhava para a Tiradentes, linha azul), até o Mackenzie na graduação e até a USP no mestrado. Três anos de colegial, mais quatro de faculdade e dois para concluir o mestrado em 2007.
Mais do que ter me levado, esse ônibus acompanhou parte da minha vida, dos meus dramas, do meu crescimento, dos meus choros contidos com a cabeça encostada no vidro, das minhas alegrias quando eu nem ligava se ele estava muito lotado e eu estava de pé, cheio de material na mão, nas costas.
Sempre que estou com alguém aqui pela avenida Angélica e ele passa, eu falo: "olha, esse ônibus fez parte da minha vida". Falo, mas as pessoas talvez não entendem, dão um sorriso e não fazem ideia da importância dessa linha de ônibus, do que eu acabei de falar.
Quando se é ou quando se passa muito tempo sozinho na vida, são esses elementos do cenário urbano que acabam sendo a nossa companhia. O ônibus, o trem, às vezes até aquele determinado banco do parque ou aquele canto na universidade onde dá pra sentar, comer o seu lanche, pegar o seu livro ou o seu walkman ou discman (se você é daquela época) e ficar um pouco ali. Pensando, fazendo planos, recuperando-se de frustrações.
Não dá para comparar ao 177-H, mas há um trem em Nova York que fez parte da minha vida: o F Train, que ia direto até o sul do Brooklyn, em Coney Island, bem perto de onde eu morava. De Manhattan até lá, eram mais ou menos 40 minutos diários. De pensamentos, livros, músicas, planos, frustrações. Saudades da minha mãe, do meu irmão, do meu pai, dos meus amigos, do meu gato. Rosto encostado no vidro manchado de melancolia.
Era uma linha bem tranquila e muitas vezes, já tarde da noite, eu era a única pessoa dentro do vagão. Ninguém morava praqueles lados e aqueles que moravam, por alguma razão, não eram de voltar muito tarde ou nem iam para Manhattan ou não sei. E muitas vezes eu tinha o trem inteiro pra mim.
Quando Hannah, no episódio e na cena que encerram a primeira temporada de Girls, volta pra casa, dorme e vai parar na última estação, justamente a de Coney Island, não tive como não me identificar. Ela está triste, sozinha, no meio da noite, "on her own", como diz a canção que Michael Penn fez especialmente para essa cena final - "on her way".
Gravei meio amadoramente a última cena da temporada, com a música, a Hannah no metrô e tudo o mais. Se você não gosta de spoilers, não veja o vídeo que compartilho abaixo. Não que vá ter muitos e não mais do que eu já contei até aqui. A cena é muito bonita e com uma sensibilidade que é difícil de se ver nas séries - à exceção de Mad Men.
On my own. Esse é o clube do qual também faço parte, Hannah. On my own no ônibus, no trem, na vida.
20.6.12
13.6.12
Nemrod
O cachorrinho era de veludo quente e palpitante com um pequeno e apressado coração. Tinha duas macias pétalas de orelha, olhos azulados e turvos, um focinho rosado, em que se podia colocar o dedo sem nenhum perigo, patinhas delicadas e inocentes com uma comovente verruga cor-de-rosa em cima e detrás das patas dianteiras. Com elas entrava na tigela de leite, guloso e impaciente, sorvendo o líquido com a língua rosada; saciada a fome, levantava tristemente o focinho com um pingo de leite no queixo e retirava-se, todo desajeitado, desse banho lácteo.
[...]
Mas pouco a pouco o pequeno Nemrod (esse é o nome orgulhoso e guerreiro que tinha recebido) começa a saborear a vida. A submissão total à imagem da união primordial materna cede lugar aos encantos da diversidade.
| Bruno Schulz e sua linda declaração de amor aos cachorros
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Mas pouco a pouco o pequeno Nemrod (esse é o nome orgulhoso e guerreiro que tinha recebido) começa a saborear a vida. A submissão total à imagem da união primordial materna cede lugar aos encantos da diversidade.
| Bruno Schulz e sua linda declaração de amor aos cachorros
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