29.1.12

Harry and Bess

Ter visitado o túmulo do grande Harry Houdini me emocionou mais, como eu já esperava, que ter visto o Woody Allen ter tocado clarinete a poucos metros da minha mesa. Com um avô (paterno) que, sempre que vinha em casa, fazia uma mágica ou outra, e com o meu irmão sendo um profissional do ilusionismo, cresci nesse meio, sempre ouvindo uma história ou outra sobre Houdini. Algumas verdadeiras, outras lendas que não sabemos se procedem. Outras inventadas pela cabeça do meu avô e do meu irmão. Só para manter o mito, ampliá-lo e jamais fazer com que morresse.

Ao entrar no cemitério Machpelah, no Queens, a relação entre a vida e a morte desse artista, que causou uma sensação inédita na sociedade americana e nova-iorquina do início do século 20, foi cortada por uma atmosfera de algo permanente que ainda respira ali. Pelos poucos minutos que passei ali, pensei em tudo o que ele fez e conquistou em tão pouco tempo: sua inserção meteórica no universo das celebridades, seu desprendimento do judaísmo estritamente religioso (o pai dele era um rabino) e sua arte como metáfora para a escapada do homem moderno e eterno outsider que passa a vida respirando debaixo d'água, preso em algemas, cadeados, e sobrevive. E agora ele estava ali na minha frente, representado por um túmulo muito antigo em um cemitério abandonado e fantasma.



No entanto, ao fechar os olhos, a morte, uma das ordens e punições divinas que sou mais contra, não pareceu ter importância. O cenário absurdo, com portões fechados e muita ventania, me soou apenas uma caricatura do que está além e é misterioso demais para adivinharmos. Houdini, que conseguia as maiores proezas durante os 50 e poucos anos que viveu, deixou essa cartada final: algo como uma cápsula microscópica de Tebas, na periferia de NY, com a inscrição "decifra-me ou te devoro". E o local devorando a si mesmo, tornando-se um palco de ninguém para ninguém, sem artista, sem espectador. Apenas o vento soprando muito forte.

Achei triste o fato de sua esposa, Bess, que também era sua assistente, não ter sido enterrada ali. Era esse o seu desejo e de Houdini, tanto que, quando o mágico morreu, a lápide foi feita para os dois (reparem que o nome dela está ali, mas sem data de morte). No entanto, quando ela morreu, em 1943, sua família não permitiu: católicos, não queriam que ela fosse enterrada em um cemitério judaico. Fica a boa e curiosa história desse túmulo, mas muito triste.

ps: mesmo com o local fechado com vários cadeados, entramos, inspirados pelo próprio Houdini: contorcendo, deitando, e criando um belo número de mágica. Obrigado, meu ídolo. :)





27.1.12

He cast a look and went mad

A parábola é relatada no Talmud. Quatro sábios entraram em um jardim, que pode ser interpretado como o Paraíso ou um reino de sabedoria mística. Um desses sábios, Ben Azzai, "lançou um olhar" e morreu imediatamente - uma morte considerada sagrada. Ben Zoma fez o mesmo, mas enlouqueceu. Elisha ben Avuyah caiu no secularismo e se distanciou da fé judaica. Só o rabbi Akiva que saiu de lá ileso.

Ontem, visitei o Jewish Museum de NYC e encontrei esse quadro de Maurycy Minkowski que faz clara referência a esse "olhar perdido para fora" que trata o Talmud: pode matar, enlouquecer ou tirar a fé. Representa o iluminismo judaico na virada do século 18/19, quando a comunidade se volta para o que está fora - no caso, o personagem central que olha para fora do quadro e para o "espectador".

É um dos quadros mais bonitos e simbólicos da emancipação judaica na sociedade.

24.1.12

The Artist

Nesta segunda-feira chuvosa por aqui em Nova York, assisti a The Artist, certamente o filme mais falado desde The Tree of Life por aqui. Não por acaso esses foram os principais concorrentes à Palma de Ouro no último Cannes e o prêmio, merecido, dado a Terrence Malick não tira o brilho da produção francesa, que no festival francês acabou levando o prêmio de Melhor Ator (a Jean Dujardin) e o de "Melhor Cachorro" (para Uggie, um jack russel terrier que rouba a cena).

Não se trata apenas de um filme mudo que faz uma homenagem ao cinema americano da década de 20, como tem sido empobrecido por parte da crítica por aqui. The Artist nos faz acompanhar a decadência da figura da estrela hollywoodiana, de lá pra cá: como foi preciso se adaptar a inúmeras transformações, tecnológicas, conceituais e temáticas para sobreviver nesse mundo, enquanto apresenta, sutilmente, motivos importantes para tais mudanças. Pode ser a figura feminina, que substitui o modelo básico do herói dos filmes (como John Barrymore dá lugar a Greta Garbo nos holofotes da mídia do entretenimento), como pode ser também o contraponto anti-heroico dessa imagem que nós, os espectadores, ansiosos pelo triunfo com o qual podemos nos identificar e projetar, invejamos.



Peppy Miller (vivida por Bérénice Bejo) é essa personagem que representa essa geração de mulheres que passaram a conquistar mais que os homens no cinema, encabeçada por Greta Garbo. Ela é apresentada, com um golpe de sorte, a Hollywood pelo protagonista George Valentin (vivido por Dujardin). Logo descobrem que a garota é realmente talentosa, tal qual seu protetor, e não demora muito para ganhar destaque no cinema. Quando chega a era do cinema falado, ele, que, por orgulho - e por falta de boa voz - é esquecido pelos produtores, mas ela então atinge o estrelato. É nesse momento que a figura do herói cai e então estamos diante de um homem derrotado que busca o suicídio, já que, em vida, viu seu sonho da imortalidade impossibilitado pela falta de voz. E as pessoas não se contentam mais com o silêncio, com a música orquestrada nas salas de cinema: o povo quer voz.

Uma das cenas mais simbólicas do filme é quando Valentin tem um pesadelo. Ele ouve tudo, menos a sua voz. O barulho do copo encostando na mesa, do seu adorável cachorro latindo descontroladamente, das pessoas rindo dele na rua. E, mais do que isso, ele vê uma pluma cair no chão e fazer o barulho de uma explosão. Mas não consegue gritar.

O filme é todo cheio de bons momentos e repleto de detalhes que, sim, homenageiam esse grande período do cinema. Fiquei emocionado do começo ao fim. Estreia no Brasil em 10 de fevereiro.

Cattelan no Guggenheim

Tem texto meu, com fotos da Juliana, sobre a exposição do Maurizio Cattelan no Guggenheim. Aqui no Trilhos Urbanos.


14.1.12

O dia em que o cocô ocupou o MoMA

Escrevi para o blog do meu amigo João Varella o que aconteceu na noite de ontem no MoMA (museu de arte moderna de NY). Fezes invadiram e ocuparam o museu. Mais uma do pessoal do Occupy.

Leiam o relato aqui.

13.1.12

The egg, the chicken and the West Side

Na cena final de Annie Hall, a personagem de Diane Keaton se despede definitivamente de Alvy Singer, vivido por Woody Allen. A narração em off relembra uma velha piada:

O cara procura um médico e diz que seu irmão está louco, porque acha que é uma galinha. O médico, claro, pergunta por que não interná-lo em um hospício? E ele diz que até internaria, mas não pode porque ele precisa dos ovos. 

E compara essa situação aos relacionamentos. Por que a gente se envolve tanto sabendo que é uma loucura? Justamente porque nossa sobrevivência, e a de nossos corações, depende disso: precisamos dos ovos.

Boa parte da história, que ganhou o Oscar de melhor filme em 1978, se passa na ruas do Upper East Side. E aqui vale uma breve explicação: da rua 59 até a 110, a ilha de Manhattan é dividida em três partes: lado leste, lado oeste e, no meio, o Central Park. Dá pra visualizar bem aqui no mapa.

O apartamento da Annie fica no East Side. Boa parte dos passeios que eles fazem - inclusive o cinema, para o qual ela chega atrasada - fica daquele lado da ilha. No entanto, Woody Allen escolheu o Upper West Side para a cena final, da separação, que eu acho uma das mais bonitas do cinema americano.


Talvez haja uma explicação mais ou menos racional para isso, que segue um pouco o fim do livro The Great Gatsby, do Fitzgerald, que também se passa em NY e nos arredores de Manhattan. Como um Destino Manifesto moderno - e todo torto - a ideia principal no imaginário americano é sempre conquistar o outro lado, avançar, go west.

A personagem de Annie fez essa escolha. Trocou NYC pela Califórnia, trocou Alvy pelo empresário malandrão vivido por Paul Simon. Foi pro lado de lá. Quando ela se despede de Alvy, ela atravessa a rua no sentido oeste, e ele volta cabisbaixo para o leste. Ele fica, não para criar raízes, mas para consumir essa derrota emocional em anos de terapia. Disponibilizo o fim do filme acima para a checagem - ela vai pra esquerda.

Hoje, ao passar por aquele lugar, ao qual já tinha ido algumas vezes mas sem a mesma sensação, senti algo estranho. Mais do que toda essa interpretação um pouco barata do filme, lembrei da piada dos ovos e da galinha. E lembrei que "I still need the eggs". Como todos nós, eu acho. ;)

11.1.12

Mistérios do metrô em NYC

Uma história rápida, porém engraçada. Eu e a Juliana no metrô voltando pra casa quando entra um trio (duas jovens e um menino). De repente começa um cheiro de fezes bem perto de onde estamos e as jovens fazem uma cara de nojo, apontam para o menino - amigo delas - e vão para o outro lado do vagão, como se o cheiro estivesse vindo dele.

Mas, pelo que entendi, não era. Ele estava carregando um saquinho, mas não fazia sentido nenhum o cheiro vir do saquinho. Quem, em sã consciência, carregaria um "bag of shit"? E por quê? Enfim, o menino sorriu e, envergonhado, foi juntar-se a elas no outro lado do vagão. O cheiro e o mistério continuaram, no entanto: de onde vinha aquele cheiro?

Uma moça à nossa frente disse, em um inglês típico do Brooklyn (que é diferente do inglês do Harlem, que é diferente do inglês do Bronx) algo como "one cannot get safely in the subway these days - there's shit everywhere". Respondemos e concordamos, mas acabamos rindo todos.

Faltavam duas estações para a nossa e, ao sair, ficamos conversando sobre o caso e o mistério. E eu dizendo pra Juliana - já passando da meia-noite na estação - "the guy's innocent. He was not carrying a bag of shit. Why would anyone?" E a Juliana discordando, falando que era muita coincidência - que o cheiro só podia ter vindo daquele saquinho do menino.

Enfim, na saída da estação, já na rua, só restou a uma dupla de negões, que provavelmente ouviu todo o papo e que estava a alguns passos adiante, dizer: "OH MAN WHAT THE FUCK".

Sim, eles perceberam a insanidade do nível da conversa. Mas insano mesmo é o metrô de NYC - especialmente no Brooklyn - e suas situações as mais bizarras do mundo.

Esse foi o mistério do "bag of shit".

10.1.12

A night at the Carlyle

Junto com Federico Fellini, Woody Allen é o meu grande ídolo no cinema. Talvez esses sejam os únicos dois diretores que posso dizer que conheço seus filmes de verdade. Que posso detalhar as cenas, lembrar de diálogos. E nesta segunda-feira (9) pude conhecer de perto um deles, o que ainda está vivo, claro.


Nossa noite no Carlyle, café que ele toca toda segunda-feira, foi muito especial e, sem dúvida, a mais emocionante desses meus 30 anos. Ficar perto dele e vê-lo se divertir junto com seus velhos amigos de banda, escolhendo as músicas na hora, improvisando, foi algo que me tocou. Cada uma das canções e dos momentos teve uma sensação estranha de memória gravada e adiantada. Como se, naquele exato instante, eu estivesse já guardando todas as sensações em minha caixinha de memórias e lembranças, programando tudo e ativando um circuito que pudesse reproduzi-las dali em diante, em uma agradável simbiose das três unidades do tempo, do passado ao futuro.

A expectativa criada foi compensada com pessoas muito simples, do staff do café àqueles que estavam ali para ver o retorno de Woody aos poucos depois de uma longa temporada de filmagens em Roma. Me senti em casa. Em algum tempo de NYC, entre todas idas e vindas desde 2007, nunca tinha ido ao Carlyle vê-lo tocar. Talvez estivesse, inconscientemente, esperando pelo timing perfeito, com uma pessoa especial ao meu lado com quem compartilhar essas mesmas sensações.

O repertório foi basicamente jazz e blues dos anos 20 e 30. No fim, o pianista ainda fez uma brincadeira com Rhapsody in Blue, do Gershwin, que abre o filme "Manhattan" do diretor. Nesse momento, aliás, Woody olhou para o piano como que dizendo "pare com isso", o que gerou muitos risos, inclusive dele mesmo.

Além deste vídeo abaixo, não muito profissional, vamos subir outro em breve, em que o diretor chega a cantar enquanto guarda o seu clarinete na música final. Aguardem. ;)



UPDATE: o vídeo do fim do show com Woody cantando