Ontem, depois de um mau jeito quando fui me agachar e depois de alguns dias carregando a minha pasta mais pesada que o habitual, minha coluna sofreu um crack que me fez ter dor contínua e intensa até este momento. São 16h30 desta quarta-feira (21). Estou com dificuldade pra andar, pra sentar, pra me levantar da cadeira e até pra deitar - só me sinto mais ou menos confortável deitado de lado ou de costas, desde que o meu pescoço fique levemente curvado. O que me faz lembrar aquele poema depressivo da Sylvia Plath que diz "I am vertical but I'd rather be horizontal".
Fui ao pronto-socorro aqui perto de casa há poucas horas. Imaginem vocês, eu que evito médicos e hospitais a todo o custo, o dano psicológico que me causa ter de ir lá mais uma vez - acho, sem brincadeira, que é a décima visita em um intervalo um pouco maior de um mês. Sempre me sinto muito triste de estar ali, especialmente quando vou sozinho. Hoje, por exemplo, uma menina que chegou quase na mesma hora que eu foi imediatamente transferida para o centro cirúrgico. Eles iriam ligar pra mãe dela. Isso porque ela chegou apenas reclamando de uma dor de cabeça. Dizia que era forte, insuportável, mas, enfim, era só uma dor de cabeça. Meu estômago revirou quando eu vi dois enfermeiros a colocando na maca e levando sabe-se lá pra onde. E ligariam para a mãe.
Mas a cena que mais me marcou hoje - e que inspira esse post - foi positiva. Sei que é clichê demais falar em casais de velhinhos, mas não há como não se comover. Bom, ainda mais quando você está em uma situação tão frágil e sozinho. Dois velhinhos estavam esperando em uma sala próxima à minha. Eu conseguia vê-los pelo espaço e corredor que separava as duas portas. De mãos dadas, talvez cansados por uma espera longa, pareciam ter os olhares distantes, pensando em sabe-se lá o quê. Na vida, na morte, no mistério que acabamos aceitando sem querer.
Entrou uma enfermeira que ajudou a senhora a se sentar na cadeira de rodas e então os três saíram da sala, não sei para qual lugar, se para alguma cirurgia, alguma internação, alguma etapa de um infindável tratamento. Essas dúvidas minhas certamente muito banais e nada comparadas às dúvidas deles. Aí, antes de virarem o corredor mais ao fundo, o velhinho para um pouco, deixa a enfermeira seguir adiante com a sua mulher, se encosta na parede e cai em lágrimas. Limpa com o lenço que, assim como eu, deve sempre carregar no bolso traseiro da calça, e retoma a sua caminhada, preocupado em não mostrar o choro nem a tristeza a ela.
São cenas diárias e comuns do dia a dia de um hospital e eu me sinto até um pouco sensível demais em me deixar emocionar com isso. Os médicos estão acostumados e todas as famílias, casais ou não, têm os seus momentos de fraqueza. Mas pensei um pouco sobre mim e também sobre os meus mistérios. Quem vai me acompanhar quando eu tiver 64 anos a caminho de uma internação em um hospital? As pessoas ainda terão paciência comigo? E as minhas manias e pequenas neuroses diárias, que hoje podem ser até motivo de piada, mas ficarão insuportáveis com a idade? Quem vai aguentá-las? E as minhas falhas, meus desvios de conduta, meus exageros, meus discursos que, sem querer, acabam diminuindo quem está ao meu lado?
Já ouvi alguns adeuses em meus 30 anos, uns mais tristes, outros marcantes, que redefiniram o meu jeito de ser. Outras pessoas me deixaram e fizeram esse anúncio via silêncio - foram se distanciando aos poucos, pararam de falar comigo, não mandaram mais e-mails, ignoraram algumas tentativas de aproximação, não perdoaram os meus tropeços. Uma ex-namorada disse que não gostava mais de mim e eu saí de sua casa, em Nova York, no meio de uma noite fria de 5º negativos, sem nem saber pra onde ir, carregando uma malinha com diplomas, poucos livros, roupas e uma cartinha da minha mãe no bolso esquerdo, dizendo que D'us está em todas as partes e eu só poderia encontrá-Lo se O buscasse. Ela citava a Bíblia, mas, sem saber, fazia referência a Spinoza. E eu não encontrei esse deus em lugar algum. Até hoje.
Amigos, amigas, ex-namoradas. Cada um ao seu jeito. Fui sendo deixado, às vezes até sem perceber. Sei que, vez ou outra, não fiz nada para me encontrar com esse abandono, que é sempre uma sensação infinita. As pessoas acharam que eu não era mais um amigo legal o suficiente para elas ou um namorado interessante o bastante para continuar. No entanto, sei que na maioria das vezes eu mesmo cavei esse buraco.
Há uma passagem engraçada, mas bastante profunda, no filme Um Homem Sério, de 2009. Quando Larry Gopnik discute com o seu aluno chinês e depois com o pai desse aluno, eles respondem apenas: "aceite o mistério". O filme, claro, trata de judaísmo e a lição, mais do que chinesa, é judaica. Ou bastante iídiche, se formos pensar pelo tom tragicômico.
E é isso o que eu sempre fiz na verdade. Aceitar o mistério.

