21.9.11

Aceitar o mistério

Eu tenho um problema mais ou menos sério na coluna, que me fez iniciar fisioterapia há algum tempo após apelos dos mais próximos, porque eu nunca tinha dado muita atenção pro caso. Sou do tipo de pessoa que prefere não procurar problemas médicos e só procurar o hospital ou algum tratamento em necessidade. Tem gente que diz que estou errado de pensar assim. Não vem ao caso e o meu post está longe de ser sobre isto.

Ontem, depois de um mau jeito quando fui me agachar e depois de alguns dias carregando a minha pasta mais pesada que o habitual, minha coluna sofreu um crack que me fez ter dor contínua e intensa até este momento. São 16h30 desta quarta-feira (21). Estou com dificuldade pra andar, pra sentar, pra me levantar da cadeira e até pra deitar - só me sinto mais ou menos confortável deitado de lado ou de costas, desde que o meu pescoço fique levemente curvado. O que me faz lembrar aquele poema depressivo da Sylvia Plath que diz "I am vertical but I'd rather be horizontal".

Fui ao pronto-socorro aqui perto de casa há poucas horas. Imaginem vocês, eu que evito médicos e hospitais a todo o custo, o dano psicológico que me causa ter de ir lá mais uma vez - acho, sem brincadeira, que é a décima visita em um intervalo um pouco maior de um mês. Sempre me sinto muito triste de estar ali, especialmente quando vou sozinho. Hoje, por exemplo, uma menina que chegou quase na mesma hora que eu foi imediatamente transferida para o centro cirúrgico. Eles iriam ligar pra mãe dela. Isso porque ela chegou apenas reclamando de uma dor de cabeça. Dizia que era forte, insuportável, mas, enfim, era só uma dor de cabeça. Meu estômago revirou quando eu vi dois enfermeiros a colocando na maca e levando sabe-se lá pra onde. E ligariam para a mãe.

Mas a cena que mais me marcou hoje - e que inspira esse post - foi positiva. Sei que é clichê demais falar em casais de velhinhos, mas não há como não se comover. Bom, ainda mais quando você está em uma situação tão frágil e sozinho. Dois velhinhos estavam esperando em uma sala próxima à minha. Eu conseguia vê-los pelo espaço e corredor que separava as duas portas. De mãos dadas, talvez cansados por uma espera longa, pareciam ter os olhares distantes, pensando em sabe-se lá o quê. Na vida, na morte, no mistério que acabamos aceitando sem querer.

Entrou uma enfermeira que ajudou a senhora a se sentar na cadeira de rodas e então os três saíram da sala, não sei para qual lugar, se para alguma cirurgia, alguma internação, alguma etapa de um infindável tratamento. Essas dúvidas minhas certamente muito banais e nada comparadas às dúvidas deles. Aí, antes de virarem o corredor mais ao fundo, o velhinho para um pouco, deixa a enfermeira seguir adiante com a sua mulher, se encosta na parede e cai em lágrimas. Limpa com o lenço que, assim como eu, deve sempre carregar no bolso traseiro da calça, e retoma a sua caminhada, preocupado em não mostrar o choro nem a tristeza a ela.

São cenas diárias e comuns do dia a dia de um hospital e eu me sinto até um pouco sensível demais em me deixar emocionar com isso. Os médicos estão acostumados e todas as famílias, casais ou não, têm os seus momentos de fraqueza. Mas pensei um pouco sobre mim e também sobre os meus mistérios. Quem vai me acompanhar quando eu tiver 64 anos a caminho de uma internação em um hospital? As pessoas ainda terão paciência comigo? E as minhas manias e pequenas neuroses diárias, que hoje podem ser até motivo de piada, mas ficarão insuportáveis com a idade? Quem vai aguentá-las? E as minhas falhas, meus desvios de conduta, meus exageros, meus discursos que, sem querer, acabam diminuindo quem está ao meu lado?

Já ouvi alguns adeuses em meus 30 anos, uns mais tristes, outros marcantes, que redefiniram o meu jeito de ser. Outras pessoas me deixaram e fizeram esse anúncio via silêncio - foram se distanciando aos poucos, pararam de falar comigo, não mandaram mais e-mails, ignoraram algumas tentativas de aproximação, não perdoaram os meus tropeços. Uma ex-namorada disse que não gostava mais de mim e eu saí de sua casa, em Nova York, no meio de uma noite fria de 5º negativos, sem nem saber pra onde ir, carregando uma malinha com diplomas, poucos livros, roupas e uma cartinha da minha mãe no bolso esquerdo, dizendo que D'us está em todas as partes e eu só poderia encontrá-Lo se O buscasse. Ela citava a Bíblia, mas, sem saber, fazia referência a Spinoza. E eu não encontrei esse deus em lugar algum. Até hoje.



Amigos, amigas, ex-namoradas. Cada um ao seu jeito. Fui sendo deixado, às vezes até sem perceber. Sei que, vez ou outra, não fiz nada para me encontrar com esse abandono, que é sempre uma sensação infinita. As pessoas acharam que eu não era mais um amigo legal o suficiente para elas ou um namorado interessante o bastante para continuar. No entanto, sei que na maioria das vezes eu mesmo cavei esse buraco.

Há uma passagem engraçada, mas bastante profunda, no filme Um Homem Sério, de 2009. Quando Larry Gopnik discute com o seu aluno chinês e depois com o pai desse aluno, eles respondem apenas: "aceite o mistério". O filme, claro, trata de judaísmo e a lição, mais do que chinesa, é judaica. Ou bastante iídiche, se formos pensar pelo tom tragicômico.

E é isso o que eu sempre fiz na verdade. Aceitar o mistério.

14.9.11

A ofensa

Vou começar o post de hoje com um conto de Franz Kafka chamado "Desista". Como ele é muito curtinho, vou reproduzi-lo abaixo na íntegra.

Era de manhã muito cedo, as ruas limpas e desertas, eu a caminho da estação. Comparei o relógio da torre com o meu e vi que era muito mais tarde do que pensava. Precisava me apressar. O choque dessa descoberta me fez hesitar quanto ao caminho a seguir: não conhecia bem a cidade. Felizmente vi um policial, corri para ele e, ofegante, perguntei-lhe qual o caminho da estação. Ele sorriu e disse:

- Está me perguntando qual o caminho?
- Sim - respondi -, pois não consigo achá-lo.
- Desista! Desista! - disse ele e, com um movimento brusco, voltou-se como se quisesse ficar sozinho com o próprio riso.

O autor judeu, em um diálogo de mais ou menos dez palavras, nos apresenta o seu universo temático, o  terreno preferido por onde gostava de se mover livremente, tal qual um deus bíblico enquanto cria todas as coisas do mundo. Kafka reporta um sujeito que, desorientado no espaço e no tempo, encara pela primeira vez a impossibilidade do trânsito, do seguir adiante. A estação em que precisa chegar não é um destino, é um instrumento, agora inacessível, a esse fim - é sempre um meio, um meio do caminho também.

Falei desse conto porque me aconteceu uma situação muito estranha nesta semana, que me fez sentir mais ou menos como o protagonista perdido. Um cara, por volta dos 20 anos, forte, enorme, gigante, passou por mim pela rua, enquanto me dirigia à estação de metrô, e me ofendeu.

Do nada, sem justificativa, sem qualquer pista do que eu possa ter feito para causar essa fúria. Eu não esbarrei nele, não o encarei, não estava mal vestido, não estava usando uma kipá ou qualquer outra coisa que me identificasse como judeu, nem uma camiseta de time contrário ao que ele torcia. Nada. A alguns metros eu já tinha percebido que ele vinha na minha direção fazendo um olhar revoltado, mas jamais poderia imaginar que, ao passar ao meu lado, cuspiria no chão e falaria "c*zão". Aí continuou andando no seu caminho.

Eu nunca tinha sido ofendido assim desse modo, tão gratuitamente e de maneira tão explícita e perto. Me senti atordoado, mesmo seguindo o meu norte automático e diário para a Record Tower na Barra Funda.

Não associei (ainda) nenhuma interpretação pessoal a esse ocorrido, não procurei significados nem me permiti conceber o evento como uma pancada do relógio, lá no alto da torre, do meu destino. No entanto, o que consigo elaborar é que, diferentemente de Kafka, em que a vergonha sempre antevê a punição - e é sua premissa absurda -, a ofensa que dirigiram a mim tem uma composição mais dostoievskiana: a humilhação, à moda de um Raskolnikov, é consequência de uma destruição moral prévia, um estado quase patológico de loucura, intolerável para a sociedade. Assim, o absurdo da situação pode ser explicado, no limite, à luz de um parasita outsider que polui e corrompe determinado meio - e, por alguma razão, eu servi de vilão social à cabeça atormentada do sujeito e então fui "castigado".

Em todas essas digressões, posso ter me perdido e sinto que essa relação com a punição dostoievskiana está longe de ser o que eu queria falar, que, na verdade, tem tudo a ver com Kafka. Mesmo que a vergonha e a humilhação, em Kafka, venham sempre antes da pena capital, do julgamento, da bronca e do "desista!", eu a senti como a adaga, bem no fundo do coração, que os algozes de K. (em O Processo) giram duas vezes para assegurar a morte mais envergonhada do mundo: "como um cão". Como se a vergonha tivesse que sobreviver.