29.6.11

O Desprezo



A Juliana escreveu sobre o filme "O Desprezo" ao qual assistimos no último domingo aqui e eu queria me defender, apesar de concordar com muito do que ela disse, e até entender a interpretação dela, do ponto de vista "feminino".

Para começar, Godard está longe de ser um dos meus preferidos. Não sou tão entusiasta do cinema francês, com a exceção de Eric Rohmer, e, dentre toda a turma da Nouvelle Vague, Godard é o mais distante pra mim. Acho difícil, chato, tedioso e sempre pretensioso.

No entanto, gosto do filme "O Desprezo" por causa de Brigitte Bardot. Durasse o filme 11 horas e meia, e eu continuaria gostando, desde que a musa ali continuasse na tela tomando sol com um livro sobre sua bunda ou com uma peruca morena ou piscando e acenando para o público ou fazendo cara de quem quer não querendo, todas essas repetições da mesma personagem, Camille.

E tem Jack Palance e Fritz Lang. Então vale esse Godard.

Voltando... O ponto da Juliana é que Camille trai o roteirista e se separa dele porque se cansou de ser objeto na mão dele, que a fica jogando na mão do rico produtor para atingir algo, nem que esse "algo" seja quitar o apartamento. E espera que Camille ande de barquinho com Palance sem lhe trair a confiança. E, claro, Camille não suporta esse jogo ganancioso e contraditório de Paul e passa a desprezá-lo. Daí o "desprezo" do título, que a musa explicita em um dos diálogos mais intensos do filme.

Dois pontos, agora meus. Boa parte da crítica do filme na época interpretou o filme como um paralelo à história da "Odisseia": Paul como Odisseu, Camille como Penélope e o produtor como Poseidon, que fica tentando atrapalhar o caminho de volta de Odisseu e, em última medida, separar o casal para sempre.

Faz sentido. "O Desprezo" conta a história de um roteiro baseado na "Odisseia" de Homero, que o diretor (Lang) quer de um jeito e o produtor (Palance) quer de outro. Esse paralelo então passa pelo filme de maneira muito sugestiva. Dentro dessa linha de pensamento, impossível encarar Camille (Penélope) como uma mulher à sombra dos caprichos do marido que termina por deixá-lo. No filme, ela de fato o abandona, mas ironicamente morre junto com o produtor em um acidente bizarro de carro - a arbitrariedade e o acaso típicos das ações dos deuses. No mito, Poseidon também tem seus planos e destinos traídos - os feácios, protegidos por Poseidon, constroem uma barca para Odisseu.

Não sou especialista em Homero, em mitologia, e reconheço que me lembro de bem pouca coisa. Mas não consigo desprezar a relação entre as duas coisas. Subverter o mito, transformar a superficial e deslumbrada Camille na Penélope moderna é a crise da modernidade. Em uma era onde o cinemão americano dá as cartas, o ideal de fidelidade é jogado pro alto como uma massa de pizza. Não somos mais gregos, é o que Palance tenta explicar a Fritz Lang o tempo todo. E a culpa não é do roteirista, que, na visão da Juliana, ficou "jogando" a esposa pro produtor. Paul aqui é vítima trágica do passado: ele não consegue ser Odisseu, não tem forças para controlar o ímpeto furioso dos mares de Poseidon, na pele do produtor pilantra. É um outro tipo de herói.

A tradutora, não à toa, nunca consegue estabelecer um diálogo entre produtor e roteirista, não porque tem dificuldade no inglês e no francês, mas porque são forças antagônicas que se chocam o tempo todo. E Camille, neste choque, se rende ao charme do dinheiro americano. Por que esperar o roteirista terminar de quitar o apartamento se ela pode ter quatro apartamentos com Jack Palance?

Mais do que uma questão financeira, é uma subversão cultural moderna, em que a dita cultura francesa (representada por Paul) é substituída pela publicidade americana. E Godard, que sabia que esta seria uma luta ingrata de um Odisseu enfraquecido contra um Poseidon muito mais poderoso, deixa a conclusão ao adorável acaso divino: um acidente.

A Penélope moderna, francesa e querendo fugir para Nova York (como Jean Seberg em "O Acossado"), adora o marido, mas não perde a chance de fazer umas comprinhas na Quinta Avenida. 

16.6.11

O tema do meu mestrado

Quando eu falo que fiz mestrado em literatura, sempre me perguntam o tema da dissertação. Eu falo que "Kafka" e evito explicar. É sempre chato ficar falando sobre isso, até porque já faz tanto tempo e, assim, fora da pauta cotidiana que nos acostuma a não falar mais sobre literatura, eu posso me atrapalhar todo, gaguejar e piorar tudo.

A convite do meu antigo orientador, o professor Moacir Amancio, vou apresentar o meu trabalho a um grupo de estudos de teoria literária e literatura judaica e ele me pediu que enviasse, antes, um pequeno resumo do trabalho. Foi difícil colocar em palavras, mas acho que consegui. Espero ter me feito claro e espero me fazer ainda mais claro na hora de apresentar o meu estudo.

E já que coloquei aqui no blog, mais abaixo, por escrito, sempre que alguém perguntar o tema, eu vou responder: "ah, entra no meu blog que lá tem". Ah, e para quem quiser ler inteirinha, está aqui nesse link. E é o tipo de trabalho que me orgulha mais pelo tema, pelas minhas ideias, pelo que desenvolvi do que pelo resultado final mesmo. Meu texto, à época, era cheio de vícios acadêmicos chatos, complicados, que só fazem andar em círculo, como em um labirinto kafkiano.

Segue o resumo, para vocês saberem o que eu estudei entre 2005 e 2007.
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Procurei estudar a obra de Kafka pela estratégia narrativa empregada pelo autor e o efeito causado por ela: o desgarre. Na linha de uma análise narratológica, selecionei cinco contos e explorei como se dá esse percurso temático de colocar em risco a própria matéria ficcional ali narrada.

Esse risco se refere principalmente a uma história cujo protagonista não consegue a inserção, a chave de entrada - deslocado de seu mundo antes do relato, que o leitor ignora e que o narrador não apresenta, o personagem fica perdido em uma situação muitas vezes extraordinária sobre a qual não exerce nenhum tipo de controle. Para piorar, o narrador kafkiano coloca o leitor em situação parecida, como se, em um movimento bastante moderno e inédito na história da literatura (considerando o extremo da situação), a mão do narrador, tradicionalmente firme e que não se solta da mão do leitor, se desprendesse, criando um efeito de tiro no escuro: só um clarão no breu e vemos, por instantes, o personagem correndo pra lá e pra cá, perdido.

O personagem desgarrado, solto e perdido da própria ficção, de acordo com a proposta de análise eleita, é apenas um reflexo e desdobramento de outros desgarres, anteriores e posteriores: a matéria ficcional que se desprende do próprio controle narrativo, que deveria prendê-la; a situação do judeu em uma Praga entre o fim do século 19 e o começo do século 20, imersa em cultura germânica e tentando se encontrar no território linguístico iídiche, com a presença ainda tímida da esfera tcheca. É o território "desterritorializado", nas palavras de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

Os contos eleitos foram: "Na Galeria", "O Veredicto", "Um Médico Rural", "O Caçador Graco" e "Um Cruzamento".

14.6.11

Dia dos Namorados

Comemorados no Ritz, com direito a lembrancinhas especiais. :)



12.6.11

Finding some clever lines to say

I know I stand in line, until you think you have the time to spend an evening with me. And if we go someplace to dance, I know that there's a chance you won't be leaving with me.

And afterwards we drop into a quiet little place and have a drink or two. And then I go and spoil it all, by saying something stupid like "I love you".

Feliz Dia dos Namorados, Juliana. :)


3.6.11

Na Record News

Miguel Arcanjo Prado, meu amigo desde os tempos de Folha, é um mentsch. Em sua chamadinha semanal na Record News desta sexta-feira (3) ele citou o meu nome e o do repórter João Varella, com o qual também muito me orgulho em trabalhar. Nomes como eles não se fazem mais no jornalismo. Ou é muito raro.

(a partir dos 4 minutos mais ou menos)