8.12.11

Ghostbusters

Esqueçam A Lista de Schindler ou A Vida É Bela ou O Pianista. Esqueçam também Um Homem Sério, Fievel ou Indiana Jones. Ghostbusters, clássico de 1984, é muito mais judaico que todos eles juntos.



Revi o filme em novembro em blu-ray, o que me fez recordar momentos marcantes da primeira vez que vi o filme, no fim da década de 80, quando ainda não sabia nada sobre filmes e as grandes aventuras que eles podiam me proporcionar. Vibrei nos momentos de ação, ri bastante de novo das gags do Venkman (interpretado pelo Bill Genius Murray), temi pelo pior quando Nova York se viu ameaçada, mais uma vez, de ser destruída e ir para outro planeta.

Sutil em seu roteiro e com referências cruzadas que pedem decodificação via humor, Ghostbusters é daqueles filmes de fazer qualquer judeu se orgulhar de sua estirpe. Moderno e, ao mesmo tempo, reflexo das lendas hassídicas de séculos atrás, o texto de Harold Ramis não cita, nem de longe e por nenhuma vez sequer, qualquer judeu ou traço de judaísmo. E por isso é tão fundamental em um primeiro traço judaico: a ausência como presentificação. Kafka já fez isso, por exemplo, quando contava a história dos chineses (no conto sobre a construção da Muralha) espelhada na judiaria da Europa de seu tempo.

Os três protagonistas são judeus: Venkman, Stantz e Spengler. Não é preciso explicitar a origem desses sobrenomes, mesmo a quem não é judeu. É só chegar no aeroporto JFK com um Venkman estampado em seu passaporte que o agente de imigração já logo vai perguntar "you're Jewish?".

Eles defendem e praticam um ritual tido como absurdo para todos: caçar fantasmas. Em Nova York. Da mesma maneira que as tradições ritualísticas do judaísmo mais ortodoxo são postas em xeque até mesmo pelos próprios judeus (ateus ou reformistas). Aliás, Venkman faz bem esse papel de descrente, que não bota fé no que está fazendo, diferentemente dos seus dois parceiros.

Há muito o que falar sobre judaísmo no filme, mas o espaço aqui tem que se limitar ao do leitor de um blog. No entanto, dosi momentos simbólicos:

(1) quando eles tentam convencer o prefeito que a situação está feia e só eles podem resolver. Aí eles citam "this is Old Testament stuff. This is heavy".

(2) na cena final - que não é mais spoiler pra ninguém - Venkman beija Sigourney Weaver e, tal qual um casamento judaico, ele parece estar de kipá na cabeça. Não é uma kipá, mas, sim, um pouco dos restos de Stay Puft, o marshmallow gigante.

O filme ativa um mecanismo de entretenimento que funciona porque, ao mesmo tempo que soa profundo e clever para os judeus que logo de cara decodificam as pistas, agrada ao grande público que o assiste como mais um episódio extraordinário e cheio de ação no dia a dia de Nova York. "I love this town."



ps: há um momento em que judeus aparecem no filme, sim, quando toda a população de Nova York se une para apoiar os Ghostbusters. Podemos ver um grupo de ortodoxos berrando e pulando nos 15 minutos finais do filme.

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