Quando Roman Polanski adaptou a sua versão de O Bebê de Rosemary para o cinema entre 1967 e 68, o terror psicológico ainda não era um gênero bem definido. Até aquele momento, poucos filmes tinham obtido destaque e recebido essa definição. Repulsa ao Sexo, do próprio Polanski, tinha criado uma história nos moldes "assombração ou loucura?", mas ainda estava longe de ter uma história amarrada como a de Rosemary. Dario Argento, Cronenberg, Brian de Palma e até Kubrick viriam depois consagrar o gênero com filmes como Suspiria e, claro, O Iluminado.
E a primeira comparação óbvia com Trabalhar Cansa, longa-metragem brasileiro em cartaz em São Paulo, é com Polanski.
Cinematograficamente, o filme de Marco Dutra e Juliana Rojas é uma aula bem executada de como reproduzir, com cenários paulistanos, um thriller psicológico clássico em versão 2.0.
Aqui, uma família de classe média paulistana decide investir suas economias em um mercadinho. O lugar é amaldiçoado, cheira a podridão e esconde um passado que os vizinhos temem em revelar. Mais ou menos como a inquilina anterior de O Inquilino, de Polanski. Que gente vivia ali?
Sabemos que o marido acabou de ficar desempregado e luta contra a sua baixa autoestima (a mulher o chama de "um bosta" em determinado momento) para suportar viver em um mundo de dinâmicas de grupo boçais em que um perfil como o seu é facilmente excluído. A mulher é a figura que aposta tudo no mercado: conversa com a corretora, com o proprietário, com o marido e aluga o local. Banca as contas, se banca, mas não lida bem com as atitudes suspeitas de seu empregado nem com os barulhos que ouve na escuridão, quando está sozinha ali antes de fechar.
Claro que o mercado está amaldiçoado e o diabo se concretiza na garra peluda que Helena encontra na parede. Em Polanski, temos a presença das paredes (em Rosemary e no Inquilino) como portais para uma outra dimensão, mais primitiva e bruta. O contato direto com o demoníaco que vive não só dentro de nossas casas (ou no mercadinho que compramos pra gente) mas em nossas cabeças.
O filme é todo pontuado com imagens que sugerem explicitamente os negros e a escravidão. A casa de Helena e de Otávio tem estátuas africanas decorando a sala e a cozinha. A filha pequena deles encena uma peça cujo tema principal é a libertação dos escravos no Brasil. A empregada, claro, é negra e no mercadinho, durante as arrumações iniciais, Helena e Otávio encontraram correntes e grilhões que parecem ter surgido da época pré-princesa Isabel.
Não sei se essas imagens todas, jogadas na cara do espectador como se gritassem "olhem, estou aqui, prestem atenção em mim", servem como uma figuração para algo maior, para um sentido obscuro da obra que não sei se consigo ler agora. Precisaria rever o filme. Mas não duvido que haja uma estranha e bizarra associação entre os nossos tempos e a escravidão. O brasileiro ordinário, comum, chão, classe média que contrata sua empregada por menos de um salário mínimo, que tem lá suas estátuas africanas decorando a sala, mas que não sabe como lidar com a garra de um animal que surge detrás de sua parede. Com a corrente enorme que servia para prender um possível trabalhador-escravo que empilhava frutas no mercadinho do dono anterior. Com a empregada negra que, dia após dia, substitui a função da mãe em acompanhar a filha. Chega até a montar a árvore de Natal sem a presença da mãe.
São hipóteses que não sei se valem, pois não encontrei material o suficiente para provar qualquer linha de raciocínio desse tipo. Mas são sugestões válidas. O filme, entretato, me parece ter outra relação que faz contato direto com a realidade classe média que todos nós vivemos sem perceber: a necessidade de entrarmos em contato com o primitivo. Helena, assim que encontra a garra peluda escondida atrás da parede, leva para casa e se tranca no quarto. Tal qual G.H. no romance de Clarice Lispector, que busca essa experiência extra-sensorial no quarto de sua antiga empregada, onde, na parede, ela fazia desenhos primitivos. E a questão da barata, claro, quando G.H. come a barata, "a fauna alada" nas palavras da protagonista. Ou, para citar outra obra da autora, no conto "Amor", em que a dona de casa busca seu escapismo no jardim botânico. Ou no olhar do búfalo no conto homônimo - aliás, voltando ao filme, no museu de bichos empalhados, Otávio se depara com uma visão bem parecedia com a do olhar do búfalo.
O sangue, mais espesso que o normal e tendendo ao preto, que escorre do nariz de Helena enquanto a sua cunhada grita imitando um morcego é a real manifestação do demoníaco na família. É a maneira como a nossa cabeça atormentada mais gosta de se expressar, causando choque e comoção daqueles "entes queridos" que estão em sua casa para celebrar o nascimento de Cristo.
Trabalhar Cansa é uma produção que tem um único ponto falho: a atuação da protagonista. Me parece que Helena Albergaria (que desconheço, admito) é aquela atriz de teatro que, quando se vê diante de uma câmera, se perde e se despedaça em atuações ultradramáticas para um público que não quer saber de exageros da dramaturgia. Não funciona para cinema. Mas todo o resto, do enredo muito bem amarrado ao clima constante de terror, é uma resposta àqueles que dizem que o cinema nacional está aquém do cinema argentino - essa discussão eu vejo cada vez mais e me irrita. Trabalhar Cansa é um dos grandes filmes deste 2011.
10.10.11
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