27.10.11

Submarino

OPEN ME. Esse é o bilhetinho que Oliver Tate, um garoto de uma cidadezinha litorânea do País de Gales, recebe de um colega de sala nos primeiros momentos do filme Submarino, que vi ontem na Mostra de Cinema de SP.

Além de ser a porta de entrada para um dos melhores filmes que vi neste ano, o bilhete, à moda dos EAT ME e DRINK ME de Alice no País das Maravilhas, projeta aquela fase da adolescência comumente conhecida como "autodescobrimento". Claro, Oliver tem 15 anos, não sabe ainda como se portar frente a seus amigos de classe, não tem certeza se é certo ou não praticar bullying contra a menina gordinha da sala, tem pais excêntricos e, claro, começa a gostar de uma menina que ele está certo de que lhe causará problemas, Jordana Bevan.

E Jordana tem uma mania realmente muito perigosa: ela é piromaníaca. Seria a metáfora ou a deixa perfeita para o conselho: "Oliver, não vá brincar com fogo", mas não chega nem perto disso. Vai muito além e de maneira mais profunda. A namorada funciona como contraponto necessário ao desenvolvimento do personagem principal, completando o que lhe sempre faltou.

O nome do filme não é gratuito. O pai de Oliver, deprimido desde os 15 anos, é um acadêmico frustrado que estuda e ensina um assunto que só é interessante para quem é "PhD em peixes". Ele sabe tudo sobre as camadas mais profundas do oceano, sobre as espécies mais exóticas de peixes e consegue explicar, em linguagem enciclopédica, por que ninguém conseguiria viver a 9,5 km de profundidade: fundo demais, a consequência de tal experiência seria a auto-implosão. E Oliver nunca se esqueceu dessa palestra proferida pelo seu pai a um grupo de alunos do primeiro grau.


As referências ao mar, ao fundo do mar, e às profundezas mais fatais e misteriosas saltam pelo filme a todo o momento. Desde a decoração do quarto de Oliver, com detalhes como a roupa de cama toda ilustrada com motivos submarinos até o capacete de escafandro bem no meio da sala e o enorme aquário iluminando a cozinha. Mais indiretamente, a profundeza submarina é sugerida quando Oliver empurra a menina gordinha no lago e ela desaperece da escola, ou quando Oliver, triste com a sua vida, se afunda na piscina de seu colégio. E, em um nível maior de figuração, na profunda depressão do pai, que escolheu uma casa bem no alto de uma colina e longe do mar, para morar. Ou na enciclopédia onde Oliver lê sobre o ultrassom, que, usando a propagação sonora de um sonar ou aparelho similar, consegue detectar e navegar onde de outro modo seria impossível.

Seguindo o princípio ativo do sonar, como nos explica Oliver, a emissão de ondas mecânicas, ligada a um receptor de som, se propaga na água, bate no fundo dos oceanos, e determina distâncias e velocidades de objetos variados. A figuração do filme sugere que, no caso do amor, passamos todos indetectáveis, intransmissíveis. Não há sonar que consiga mensurar e analisar nossos comportamentos debaixo d'água, se contarmos esse estado submarino como condição de entrega amorosa. Não há como prever ou controlar as próximas ações e estamos todos nadando no escuro.

Nesse processo de autoconhecimento juvenil, Oliver descobre que certas coisas não têm explicação racional ou não são encontradas na enciclopédia ou nas palestras do seu pai. E a figura de Jordana, vidrada por fogo e por fogos de artifício, e representada de maneira viva pela cor vermelha, também não lhe responde nada, mas ajuda o menino a sobreviver debaixo d'água.

Na imagem final do filme, aliás, muito sensível, Oliver e Jordana caminham lado a lado em direção ao desconhecido e ao fundo do mar (aqui em sentido literal), como se pretendessem atingir as tais camadas mais profundas do oceano. Passo a passo, descobrem uma aliança inédita que até então não tinham descoberto: estão juntos e dispostos a enfrentar qualquer risco sob os sete mares. 

4 comentários:

danttas disse...

Lindo resumo.Lindo mesmo.

Thiago Blumenthal disse...

Obrigado pela leitura e pelo comentário simpático, Danttas.

Clara L. disse...

Muito boa análise do filme, fiquei com mais vontade ainda de ver!

Paula Cunha disse...

Cadê o botãozinho azul do face? queria compartilhar. A propósito: você já leu The Growing Pains of Adrian Mole", de Sue Towsend? Acho que são obras que se namoram(The Growing... e Submarino). Ambos os protagonistas são adolescentes ingleses, nerds e inseguros, com problemas sexuais e pais escrotos. Adrian é o narrador que a conta em forma de diário. A história se passa em 82/ 83, na época da guerra das Malvinas. Eu tenho um sentimento especial por Adrian. Talvez uma empatia ou uma afinidade, sei lá.

Paula Cunha