Em 1947, o dramaturgo Jean Genet lançava sua peça "As Criadas". Na história, acusada de ser violenta e cruel demais, Solange e Claire simulavam, em constante e hipnótica troca de papéis, a relação patrão-empregado. Na ausência da patroa, referenciada apenas como Madame, elas buscavam uma maneira de se vingar da opressão diária a que estavam submetidas. A suposta porta de escape, que deveria libertá-las e promover o caos social frente à burguesia francesa, só poderia ser alcançada via representação e via subversão da relação de poder. No entanto, a satisfação se revela incompleta e só passa a justificar mais a tirania da sociedade pós-Revolução Industrial. Não há final feliz.
Passado mais de meio século, o cineasta Lars von Trier realiza o filme "Melancolia", que fui assistir ontem. Não sabia que a inspiração para o longa tinha sido essa peça de Genet e confesso que não notei, em uma primeira análise, nenhuma ligação entre as duas obras. Aqui, Justine e Claire são duas irmãs em conflito que não conseguem se entender nem mesmo no dia do casamento da primeira. Claire e o marido preparam uma festa luxuosa, gastam muito dinheiro, e nada basta para tirar Justine da visível depressão que ela está sofrendo.
Há então um jogo de representação, agora eu consigo enxergar, muito parecido ao de "As Criadas". O que antes era uma classe social que precisava ser derrubada, agora há um mal abstrato do qual precisam se livrar, reverter a equação. Pode ser a depressão de Justine, que arruina a todos que estão a sua volta. A saber: o noivo que não tem seu amor correspondido, o patrão que não consegue o seu "slogan", o cunhado que tem de aturar a sua presença e ainda gastar muito dinheiro com isso, a irmã que não tem permissão para fechar a esperada representação.
O planeta Melancolia, que se aproxima enorme da Terra e vai se colidir com todos nós, não é apenas uma imagem poética ou metáfora para a depressão de Justine. Ele é real e, desde o prelúdio do filme, sabemos que não teremos chance, que "the end is near".
Nos 130 minutos do filme, somos testemunha daquela família que vai morrer. É horrível, dá angústia. E dá muito medo. Vemos os cavalos no celeiro se debatendo com aquela estranha presença planetária se aproximando, vemos o cunhado optando pelo suicídio e sendo enterrado com feno, vemos a impotência de Claire e o tormento de Justine.
As duas, à moda de "As Criadas", falham na representação, na troca de papéis com o mal interplanetário, na subversão que não se realiza. E, claro, não sobrevivem e a "caverna" (ou cabana) construída para encerrar a encenação não as protege do fim trágico.
Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland vivendo o trio que representa toda a humanidade, "Melancolia" é um filme sensível, sem violência, sem imagens chocantes - como foi o caso de "Anticristo". Desvela a máscara que precisamos vestir em uma esfera familiar e que cai quando se aproxima um mal súbito que não podemos ignorar.
O silêncio quase fúnebre ao fim da sessão, inclusive o meu, é a realidade que chega e nos dá um soco no estômago. Claire se debate em completo desespero quando o planeta Melancolia enfim destrói a Terra. Não há como compactuar com essa ameaça, não há como compactuar com o delírio depressivo de Justine, não há como lidar com o suicídio covarde de John. A Madame, de Genet, é morta porque não há como inverter factualmente a relação entre elas - vingar-se pela morte não resolve. E o mesmo fracasso ocorre em "Melancolia", como visão pessimista de que não é possível inverter o jogo e superar o quadro depressivo de uma pessoa.
Na qualidade explícita e pesada de uma depressão gigante, o planeta não pode ser desviado ou servir de câmbio para uma troca que, segundo os cientistas, seria não só mais justa, mas também possível. E não, nunca é possível, diz Lars von Trier inspirado por Genet.
7.8.11
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