Ele me disse que boa parte dos textos do autor tcheco gira em uma espiral que, além de aniquilar qualquer possibilidade de figuração metafórica, suga o próprio narrador (e o leitor, por consequência) a um centro nervoso. Dali se espalham vários fragmentos que, quando expelidos, se juntam nessa espécie de furacão textual de novo. E para sempre. E sem volta. É a volta ritual da amazona frágil e tísica com seu cavalo em "Na Galeria", por exemplo, em um dos contos mais explícitos desta estrutura kafkiana.
O realismo de Kafka, mesmo que absurdo e repleto de imagens de um expressionismo bizarro e maníaco, não permite metáfora. O inseto Gregor Samsa é somente um inseto, como afirmou Roberto Schwarz em "Uma barata é uma barata é uma barata", ensaio de 65 que promoveu a discussão séria sobre o autor no Brasil.
O que Kafka, a noção de "ein sof" e a aniquilação da metáfora têm a ver com A Árvore da Vida, novo filme de Terrence Malick, que assisti na última sexta-feira (12)? Kafka passa longe, nenhum cruzamento possível. Mas o modo que o leio há muito tempo, dentro dessa linha de pensamento que apresentei acima, vale para o longa-metragem.
Confesso que demorei pra refletir algo sobre a produção e, por consequência, para me arriscar a escrever algo. O filme é denso, todo fragmentado em cacos de significação que ligam momentos diferentes da família O'Brien e da própria humanidade. Ilustrados por essa família de cinco membros (depois, com a perda de um dos filhos, quatro), a noção de existência é esmiuçada desde os primórdios, quando uma explosão inicial e misteriosa deu origem à vida, passando pelos primeiros organismos aquáticos, pelos dinossauros, até chegarmos ali, em uma pequena cidade de Texas nos anos 50, onde tudo vai acontecer.
Não é um filme fácil, não porque exija algum tipo de intelecto cinematográfico ou porque seja experimental, mas porque nos deixa atônitos, sem saber o que pensar e como reagir. E essa falta de reação que temos diante do filme, pelo menos a que eu tive, é um espelho de como somos tão frágeis, tal qual a amazona tísica do conto kafkiano, diante de um mundo cheio de mistérios, dúvidas, imagens as mais variadas e bizarras possíveis, e principalmente diante de um deus que não nos responde e é mau.
Acompanhar o drama dos O'Brien e especialmente do filho mais velho, na figura de Sean Penn que se perde em memórias de sua infância, é sermos sugados pelo universo de significação fechado e que não permite saída para qualquer lado fácil da metáfora, da figura de linguagem que está na literatura para resolver todo e qualquer enigma. Não dá. Os enigmas de A Árvore da Vida vão nos levando cada vez mais para dentro desse buraco. Vamos afunilando, sendo pressionados entre muitas imagens diversas de uma memória humana.
Sonho entra em choque com a realidade: lembra-se da mãe, "cheia de graça", ali no jardim, mas ela levita, flutua, em uma cena de arrepiar qualquer menino que tenha lido a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Como mágica também, graça entra em choque com a natureza, que não é boa, que destrói, que extermina aqueles que a habitam e promove o caos sobre a Terra: no entanto, o jardim de girassol é estupendo e a erupção de um gêiser lava a nossa alma. E, por fim, D'us entra em choque com Jó, citado no começo do filme e que serve de mote para a produção: a cada dúvida ou desconfiança humana, a ira divina que responde com "criação". E é a própria imagem divina que tem a palavra na epígrafe.
Onde você estava quando as estrelas d'Alva juntas cantavam,
e todos os filhos de D'us rejubilavam?
Ao fim, depois de termos sido levados até o extremo onde todos os elementos se juntam, somos então expelidos. É quando o filho reencontra os pais em uma experiência religiosa, do "religare", e o irmão morto e todos aqueles que fazem parte desse jogo sem sentido, ou seja, todos nós. Sem faces, não identificados, mas todos nós caminhando, ou retornando, a um desconhecido, que em inglês há uma expressão imbatível: the great beyond.
Algum dia você vai cair e chorar. E vai entender tudo. Todas as coisas.

1 comentários:
ainda estou tentando entender o que esse filme fez comigo. Saí da sala de cinema sem saber de nada, com o coração na mão. Foi horrível.
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