18.8.11

A Árvore da Vida

Há um conceito em hebraico chamado "ein sof" (אין סוף), que dá para traduzir e interpretar de diversos modos, mas via de regra significa "sem fim". A primeira vez que ouvi falar nele não foi com um rabino, mas com um psicanalista em uma conversa casual sobre Franz Kafka, muito antes de eu pensar em fazer meu mestrado sobre ele.

Ele me disse que boa parte dos textos do autor tcheco gira em uma espiral que, além de aniquilar qualquer possibilidade de figuração metafórica, suga o próprio narrador (e o leitor, por consequência) a um centro nervoso. Dali se espalham vários fragmentos que, quando expelidos, se juntam nessa espécie de furacão textual de novo. E para sempre. E sem volta. É a volta ritual da amazona frágil e tísica com seu cavalo em "Na Galeria", por exemplo, em um dos contos mais explícitos desta estrutura kafkiana.

O realismo de Kafka, mesmo que absurdo e repleto de imagens de um expressionismo bizarro e maníaco, não permite metáfora. O inseto Gregor Samsa é somente um inseto, como afirmou Roberto Schwarz em "Uma barata é uma barata é uma barata", ensaio de 65 que promoveu a discussão séria sobre o autor no Brasil.

O que Kafka, a noção de "ein sof" e a aniquilação da metáfora têm a ver com A Árvore da Vida, novo filme de Terrence Malick, que assisti na última sexta-feira (12)? Kafka passa longe, nenhum cruzamento possível. Mas o modo que o leio há muito tempo, dentro dessa linha de pensamento que apresentei acima, vale para o longa-metragem.

Confesso que demorei pra refletir algo sobre a produção e, por consequência, para me arriscar a escrever algo. O filme é denso, todo fragmentado em cacos de significação que ligam momentos diferentes da família O'Brien e da própria humanidade. Ilustrados por essa família de cinco membros (depois, com a perda de um dos filhos, quatro), a noção de existência é esmiuçada desde os primórdios, quando uma explosão inicial e misteriosa deu origem à vida, passando pelos primeiros organismos aquáticos, pelos dinossauros, até chegarmos ali, em uma pequena cidade de Texas nos anos 50, onde tudo vai acontecer.

Não é um filme fácil, não porque exija algum tipo de intelecto cinematográfico ou porque seja experimental, mas porque nos deixa atônitos, sem saber o que pensar e como reagir. E essa falta de reação que temos diante do filme, pelo menos a que eu tive, é um espelho de como somos tão frágeis, tal qual a amazona tísica do conto kafkiano, diante de um mundo cheio de mistérios, dúvidas, imagens as mais variadas e bizarras possíveis, e principalmente diante de um deus que não nos responde e é mau.

Acompanhar o drama dos O'Brien e especialmente do filho mais velho, na figura de Sean Penn que se perde em memórias de sua infância, é sermos sugados pelo universo de significação fechado e que não permite saída para qualquer lado fácil da metáfora, da figura de linguagem que está na literatura para resolver todo e qualquer enigma. Não dá. Os enigmas de A Árvore da Vida vão nos levando cada vez mais para dentro desse buraco. Vamos afunilando, sendo pressionados entre muitas imagens diversas de uma memória humana.

Sonho entra em choque com a realidade: lembra-se da mãe, "cheia de graça", ali no jardim, mas ela levita, flutua, em uma cena de arrepiar qualquer menino que tenha lido a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Como mágica também, graça entra em choque com a natureza, que não é boa, que destrói, que extermina aqueles que a habitam e promove o caos sobre a Terra: no entanto, o jardim de girassol é estupendo e a erupção de um gêiser lava a nossa alma. E, por fim, D'us entra em choque com Jó, citado no começo do filme e que serve de mote para a produção: a cada dúvida ou desconfiança humana, a ira divina que responde com "criação". E é a própria imagem divina que tem a palavra na epígrafe.

Onde você estava quando as estrelas d'Alva juntas cantavam, 
e todos os filhos de D'us rejubilavam?

Ao fim, depois de termos sido levados até o extremo onde todos os elementos se juntam, somos então expelidos. É quando o filho reencontra os pais em uma experiência religiosa, do "religare", e o irmão morto e todos aqueles que fazem parte desse jogo sem sentido, ou seja, todos nós. Sem faces, não identificados, mas todos nós caminhando, ou retornando, a um desconhecido, que em inglês há uma expressão imbatível: the great beyond.

Algum dia você vai cair e chorar. E vai entender tudo. Todas as coisas.

1 comentários:

Natacha Cortêz disse...

ainda estou tentando entender o que esse filme fez comigo. Saí da sala de cinema sem saber de nada, com o coração na mão. Foi horrível.