31.8.10

Cinema

Lá no R7 trabalho na editoria de Cinema. Acho que dei muita sorte de terem me encaixado nessa área, pois é mais tranquila, não tem a ver com hard news, em que teria de ficar ligado o tempo todo de maneira insana, e, diferente de algumas outras editorias ainda dentro de Entretenimento, como Jovem e Música, o apelo não é tão grande ao extremamente popular. Em Música e Jovem, por exemplo, eu teria que preparar muitas matérias sobre Luan Santana, Fiuk, Restart e outros.

Nada contra, eu faria numa boa (e até já fiz no plantão desse fim de semana, quando todo mundo tem que escrever sobre tudo pra cobrir quem não está lá), eu gosto também do popular e do popularesco. Mesmo. Mas, dentro dessa abordagem para o "leitor de internet", prefiro escrever sobre filmes de zumbis, Karatê Kid e outros filmes mais pop a escrever sobre o programa Ídolos.

E, depois de literatura, cinema é a minha "arte" preferida, então realmente dei sorte. Pra mim, o cinema causa alguma coisa que o Tarantino ilustrou muito bem em uma cena, bem rápida e que passa desapercebida por muita gente, no filme À Prova de Morte. É quando a Abby (a cabeleireira) pula pro banco da frente do carro pra ver o que está acontecendo: é a sua amiga Zoe que está lá no capô do carro, fazendo uma das manobras mais arriscadas da profissão de dublê, que é a "ship's mast".

Abby, que não está acostumada a tanta adrenalina assim, de repente se transforma e a sua expressão de medo vira um sorriso de satisfação e empolgação. Acho que o Tarantino resumiu bem nessa cena de alguns segundos o que o cinema faz com a gente.

Pra quem não tiver paciência de ver o vídeo inteiro, pule pro 3m42s. É bem nessa parte que ela se vê tomada pela tal sensação.

27.8.10

BLOOM E BLUR

Hoje eu ouvi alguém cantando a música "There's no other way", do Blur. Nossa, quanto tempo que eu não ouvia essa música e, pra falar a verdade, quanto tempo que eu não ouço Blur, nem falar deles, que sempre foram uma das minhas bandas preferidas e que me apresentaram o britpop muito antes do Oasis.

Vou deixar vocês com essa música pro fim de semana. Além dela, uma imagem engraçada do professor Harold Bloom, sobre os cabelos dele. Quando eu tive contato com ele, em 2007-08, ele tinha mais esse cabelo da fase 98, segundo a imagem. Infelizmente, ele estava passando por sérios problemas de saúde (fui visitá-lo algumas vezes no hospital e tudo) e talvez isso explicasse um pouco o haircut.

Sobre o Bloom, ele foi a pessoa mais inteligente que já conheci na vida. E muito humilde, gentil e educado. Depois dele, entra o meu ex-chefe Jacó Guinsburg, da editora Perspectiva, e, em terceiro lugar, o meu amigo Fabrício. :)

Bom, fiquem com Bloom e Blur (no programa Top of the Pops).



Um pouquinho ausente...

Quero pedir desculpas aos meus leitores. São pouquinhos, mas são fiéis, e eu fico sempre mal por não escrever nada, tendo sempre tantas coisas e assuntos tão legais na internet pra compartilhar com vocês e tantos filmes legais para falar sobre, músicas que lembro e posto aqui, sonhos (de dormir mesmo, não de metas e planos) que quero dividir.

O trabalho novo está tomando muito o meu tempo, porque ainda estou me adaptando ao ritmo, ao "publicador" (a ferramenta de trabalho) e tudo o mais. Mas logo logo prometo que terei mais tempo para voltar a me dedicar ao blog. Podem deixar.

Por ora, deixo vocês com fotos do Lobinho, que é muito mais importante que qualquer assunto desse blog. :)


24.8.10

WORDS

Como as palavras podem ter diferentes sentidos. Na prática. Um vídeo muito sensível que pega algumas palavras como "play", "light", "break" e outras e mostra os seus inúmeros sentidos.


WORDS from Everynone on Vimeo.

18.8.10

HOW DO I LOVE THEE

O dia passou, mas não me esqueci do texto romântico da semana. Dessa vez, é uma letra de música, espero que vocês não me julguem por isso.

É de uma banda que gosto muito e da qual fui muito fã por um bom tempo, do nível de ter todos os cds, todos os singles etc. Belle & Sebastian. Eles, ao contrário do que pensam os que não conhecem muito a banda, não têm lá muitas letras declaradamente românticas; são mais pequenas histórias cotidianas e uma reflexão simples em cima disso. Mesmo quando estão falando de amor, de relacionamento, me parece que as letras de Stuart Murdoch, o líder da banda, mais contam do que aconteceu ou está pra acontecer do que exaltam qualquer sentimento amoroso.

Mas aqui, em "There's Too Much Love" (a saber, uma das minhas músicas preferidas deles), parece que está tudo mais claro. Trechos como "when I am numbering my foes, I hope that you are on my side, my dear" e "I can't hide my feelings from you now, there's too much love to go around these days" mostram bem isso: o cantor se declarando a alguém que o ouve.

A letra tem uns trechinhos meio complicados, mesmo pra quem sabe inglês bem. Por exemplo, "you think I'm faultless to a T", que é algo como "você acha que sou perfeitinho demais", mas isso em uma tradução muito descuidada. Talvez alguém possa sugerir uma tradução muito melhor. :)

Enfim, deixo vocês com a letra da música e com o vídeo ao vivo aqui no Brasil (quando eles vieram em 2001), nos estúdios da MTV.

I could hang about and burn my fingers
I've been hanging out here waiting for something to start
You think I'm faultless to a 't'
My manner set impeccably
But underneath I am the same as you

I could dance all night like I'm a soul boy
But I know I'd rather drag myself across the dance floor
I feel like dancing on my own
Where no one knows me, and where I
Can cause offence just by the way I look

And when I come to blows
When I am numbering my foes
Just hope that you are on my side my dear

But it's best to finish as it started
With my face head down just staring at the brown formica
It's safer not to look around
I can't hide my feelings from you now
There's too much love to go around these days

You say I've got another face
That's not a fault of mine these days
I'm honest, brutal and afraid of you


17.8.10

Lobinho e João Almino

Hoje na Livraria Cultura agora de noite eu vi um livro tão adorável que não resisti e vim comentar aqui. Chamava-se "Lobinho, o Detetive da Floresta", que faz parte, descubro, de uma série do selo Companhia das Letrinhas. Inevitável não lembrar do Lobinho que tem aqui em casa, o whippet louco que adora uma grande confusão.






Hoje também saiu uma reportagem e entrevista que fiz com o escritor João Almino para a revista virtual Trópico, para um dossiê de literatura em decorrência da publicação de seu último livro "Cidade Livre". Aqui.

Ah, e hoje também foi meu primeiro dia no novo emprego. Depois de uma noite muito mal dormida, com espasmos de ansiedade, medo e verdadeiro terror, deu tudo certo. Acho que a primeira semana em qualquer emprego novo é um obstáculo muito difícil a ser superado e, a contar do primeiro dia, acho que tudo vai ficar bem. Continuem torcendo. :)

Bom, mas deixo vocês com dois trechinhos da minha reportagem com o João Almino.




"Livre" porque isentava os comerciantes locais de pagarem seus impostos, a cidade que depois seria satélite da capital antevê o futuro no Planalto Central. Aquela mistura de concreto cheio de formas modernistas com o pragmatismo selvagem dos empreiteiros (o pai do narrador fez dinheiro e fama vendendo imóveis na região) se unia ao motivo do misticismo da "Cidade Eclética que deve ser a Nova Jerusalém".

[...]

Como o senhor trata a questão autoral no texto? Há mais humor ou reflexão literária no fato de estabelecer o "João Almino" como revisor (do qual o narrador muitas vezes discorda) do livro?

As duas coisas, espero. O João Almino revisor serve para marcar, para o leitor, uma distância entre, de um lado, o narrador, que é autor do livro-blog, e aquele cujo nome vem estampado no capa do livro impresso. Mas serve também para introduzir mais uma camada de leitura, com piscadelas de olho para o leitor.

12.8.10

C'EST FINI

Segunda-feira começo, enfim, o novo trabalho. Como agora tenho poucos dias de férias restantes, vou me ausentar do blog e, na medida do possível e do controlável, da internet. Bom, e desejem-me sorte. Como qualquer novidade, a ansiedade e o medo são grandes, mas pretendo adaptar-me ao novo ambiente, que certamente será muito aprazível, o quanto antes.

Trocar de emprego, quando você trabalhou muito tempo na anterior (meu caso, de dois anos -- parece pouco, mas não é), é como trocar de casa, de família, de namorada, de país. Requer adaptação.

Deixo vocês com alguns links de coisas legais que li na internet recentemente:

(1) Brasil é o país que passa mais tempo na internet, na Folha.

(2) Segundo o Guardian, em mais ou menos dez anos os antibióticos terão efeito nulo. E agora?

(3) Como a internet influencia e influenciará nossa leitura e nossos conhecimentos culturais, no site da Atlantic. Parece uma discussão antiga, sem fim, mas não é. E aqui o foco é outro.

(4) Quer saber os cinco melhores livros de um determinado assunto ou área indicados por um especialista? Aqui. E é atualizado diariamente. Achei muito legal.

(5) Não exatamente um link, mas dica de uma revista. Na última edição da CP Literatura já nas bancas, uma matéria que fiz sobre o Isaac Bashevis Singer, cujo "A Morte de Matusalém" a Companhia das Letras publicou recentemente. Trechos abaixo.



Tomem esse situação: você é um judeu durante a Segunda Guerra Mundial; tem que abandonar o seu vilarejo ao saber que os alemães estão se aproximando; escritor, tem que escolher quais pertences levar, se os seus textos não publicados ou suas roupas; no meio da corrida, como o peso da mala é grande, tem que decidir quais textos abandonar pelo caminho; sua esposa, também no meio desse pandemônio todo, corre na sua frente e flerta com outro judeu mais à frente, mais rápido na corrida que você; por fim, é pego e acaba sendo exilado e despachado para a morte certa. Essa é uma história de Isaac Bashevis Singer (1904-91).

[...]

Singer expunha o lado demoníaco e sombrio do ser humano e colocava em xeque a dita "sabedoria" dos homens. Era um judeu ciente de que é impossível domar o demônio que habita em cada um de nós e, por isso, era melhor comprazer-se com ele. Em muitas de suas histórias, os dibukim (demônios que se apoderam do espírito de uma pessoa, no folclore judaico) prevalecem, mesmo após uma intensa luta de seus personagens.

[...]

Disciplinado, trabalhava sempre por duas horas todas as manhãs; concentrado por essas duas horas, poderia conseguir bons resultados, dizia. E, de pouco em pouco, de poucas em poucas páginas por dia, logo seriam muitas páginas de uma história bem cuidada, já que fazia a revisão desses textos durante as tardes. Singer era metódico e um revisor meticuloso. Linha a linha, era muito preocupado com as palavras, sem nenhuma vírgula sobrando, advérbio exagerado ou adjetivo repetido. "Corrijo sem parar, pois, sem isso, não haveria possibilidade de literatura ou mesmo de civilização. Até mesmo o amor às vezes precisa desse trabalho."

ps: nessa edição, tem um texto da Juliana sobre leitores digitais.

ps2: calma, a capa é, infelizmente, sobre o Saramago, mas não tenho nada a ver com ele. :)

11.8.10

CYNTHIA POWELL LENNON

Hoje eu comentei no meu Facebook que no dia 11 de agosto de 1966 (ou seja, há exatos 44 anos), John Lennon havia escrito uma cartinha oficial desculpando-se por ter dito que os Beatles haviam se tornado mais populares que Jesus Cristo.

Aí, um amigo meu fez um comentário e se iniciou o seguinte diálogo.

FABIO TARDIN
One of his big mistakes. Yoko would be another one.

THIAGO
How could one leave a girl like Cynthia Powell behind?

FABIO
Heard that she was like a dead fish in bed though. Yoko, on the other hand....

THIAGO
Going to post about Cynthia in the blog.

E aqui estou eu pra falar da Cynthia Powell. Essa aqui da foto abaixo.



Foi casada com o John por seis anos (de 62 a 68) e teve com o rockstar um filho, o Julian. São muitas histórias pra contar sobre essa que, na minha opinião, era a esposa mais bonita de todos os beatles (apesar de a esposa do George, a modelo Pattie Boyd, ser meio que unanimidade).

Pra mim não era só a mais bonita, mas a mais legal (junto aqui com a Linda McCartney). E mesmo com essa fama de "dead fish in bed", nada justifica o John tê-la trocado pela Yoko. Pior: ele se apaixonou pela Yoko por causa de uma obra de arte dela! Não dá, John.

Agora uma história pra mim inesquecível com a Cyn é uma que um amigo do meu irmão, beatlemaníaco fanático, contou uma vez. Sobre como o John a abandonou. Não sei se é verídica (a Wikipedia não me confirmou), mas preparem-se. É a história de abandono mais triste do universo.

Estavam todos eles em uma estação de trem na Inglaterra, à espera do próximo embarque. O John já havia se apaixonado pela Yoko (e a Cynthia já estava desconfiada). Bom, a Cynthia precisa ir ao banheiro com urgência, mesmo sabendo de que o trem chegaria ali em alguns minutos. E vai. Demora além do tempo e o John não pede pra esperá-la. Pelo que dizem, quando ela saiu correndo do banheiro em direção à plataforma da estação, ela só viu o trem partindo, já a uma distância inalcançável. E o John, cold blood, olha da janela pra trás e dá um tchauzinho.

Cynthia, você merece muitas fotos. I would certainly have killed myself.





HOW DO I LOVE THEE

O poema romântico de hoje é do W.H. Auden e se chama "If I Could Tell You".

Time will say nothing but I told you so,
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reasons why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose the lions all get up and go,
And all the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.

COMO TIRAR O SEU MTB

Saiu no Novo em Folha, blog da Ana Estela (editora de Treinamento da Folha), o meu texto ensinando o caminho das pedras para os jornalistas tirarem o seu MTB. Tomara que muita gente, desesperada como eu estava, consiga agora resolver a questão. Boa sorte a todos! :)

10.8.10

OPEKTA

Escrevendo pra próxima revista CP Literatura sobre autores que sobreviveram ao Holocausto, descobri que, na frente da parede falsa que dava acesso à sala secreta onde se escondia a família Frank (Anne, sua irmã e seus pais), havia colado esse cartaz da Opekta, empresa do pai Otto que fazia uma base usada na produção de marmelada e geleias. Opekta. Achei tão bonito e simbólico.


9.8.10

LINKS

Links do dia.

"Patópolis", novo livro do Marcelo Coelho.

Bom texto da Piauí sobre as dancinhas em Auschwitz, sobre as quais comentei aqui, mais ou menos no mesmo tom (inclusive mencionando a histórica dança de Groucho Marx).

Every position of Rubik's Cube can be solved in 20 positions or less. FYI, God's number is 20. (link compartilhado por meu primo ortodoxo)

E se a Terra parasse de girar?

Boa história sobre uma das sociedades mais secretas de Paris. Boa pauta pra Ilustríssima ou Piauí.

Passou batido por muita gente, mas o que foi isso que aconteceu na China no mês passado?

O que nos deixa feliz?

O cemitério mais feliz do mundo, na Romênia.

____________________________________________

Relembrando Seinfeld, o momento em que Kramer acusa o Jerry de ser "anti-dentite".

SONHO E RÁDIO

Eu estava entrando no meu prédio com o meu pai e meu irmão. Pegamos o elevador com um senhor e a filha dele. Aí o elevador começou a subir em uma velocidade insana. Quando chegou lá no alto, bateu no teto e começou a cair daquela altura. Onze andares.

Tentei apertar o botão de emergência, mas já era too late. O que fazer? Caiu, mas sobrevivemos. Saí dos escombros e fui falar com o porteiro, em meio ao pó e tonto daquela experiência hardcore pela qual tinha acabado de passar. Ele vibrava, dizendo que: "por isso que jamais vou deixar de ser porteiro. A gente vê milagres todo dia!".

Acabou o sonho assim. Desculpem essas intromissões recentes para relatar os meus sonhos. É que, como disse antes, é tão raro eu me lembrar que, quando lembro e quando são sonhos dignos, eu não aguento.

Bom, e fiz uma rádio minha aqui, no site Songza. Podem ouvir, quem quiser. Vou adicionando mais músicas com o tempo.

8.8.10

MITN HARTSN

"Ober di oygen zenen blind. Men darf zukhn mitn hartsn". Meu amigo Fabrício que me mandou hoje pela manhã, lá de longe. Em iídiche. Algo como "Os olhos são cegos. Deve-se ver sempre com o coração".

Boa semana a todos.

:)

PALITO PÓS-RECOVERY

O Lobinho está bem, após uma semana de repouso moderado, alguns antibióticos e muito mimo por parte de seus pais e avós. Fotos do domingo. :)







SOBRE ATEUS E O MAL

Acabo de ler na Folha.com (com certo atraso, já que o texto é do dia 5) o brilhante texto do Hélio Schwartsman sobre a campanha filisteia que José Luiz Datena está fazendo contra ateus.

Alguns trechos transcrevo abaixo. Mas merece ser lido na íntegra no link que destaquei acima.

O apresentador disse que só quem não acredita em Deus é capaz de cometer crimes. Afirmou que ateus são "pessoas do mal", "bandidos", "estupradores", "assassinos". Chegou bem perto de declarar que a culpa da violência e da corrupção no Brasil é dos ateus.

[...]

Acredito em liberdade de expressão em sua forma forte. O Datena é livre para dizer o que pensa de ateus, e, nós para afirmar o que quisermos de suas declarações, da religião e da própria ideia de Deus. O debate tende a ficar veemente, mas, enquanto ninguém substituir palavras por fogueiras, estamos num jogo razoavelmente civilizado. Se só pudermos dizer o que as pessoas estão dispostas a ouvir sem ofender-se, a liberdade de expressão nem precisaria estar inscrita na Constituição.

[...]

É complicado ligar de forma forte virtude a religião. Embora diversas crenças se apresentem como fonte da moral, esse é um vínculo que não resiste às evidências empíricas disponíveis nem à análise da incipiente ciência moral.

Se é da religião que vem a moral, deveríamos, como vivamente prognosticou Datena, encontrar nas prisões um grupo desproporcionalmente grande de ateus e menor de religiosos. Não é isso, porém, o que sugerem os dados.

[...]

A ausência de vínculo entre religião e "bom comportamento" também foi verificada nos EUA em relação a divórcios (vistos como pecado ou falha moral por várias igrejas) e trabalho voluntário de médicos. Na verdade, médicos ateus e agnósticos se mostraram um pouquinho mais generosos para com os necessitados do que seus colegas religiosos, de acordo com um trabalho citado por Darrel Rey em "The God Virus".

SONHO COM IMPLICAÇÕES MORAIS

É muito raro eu me lembrar dos meus sonhos. Tenho algum mecanismo de trava durante a madrugada e nos períodos de não vigília que deve impedir qualquer trauma via flashback voltar à superfície. Só posso interpretar assim para explicar a razão de eu raramente me lembrar dos sonhos. O que é um mecanismo de defesa altamente positivo.

Mas de vez em quando eu lembro. Hoje, por exemplo, eu sonhei que estava no metrô (que não era o de São Paulo nem de nenhum lugar específico, apenas um metrô X) e tinha um cego pedindo dinheiro. Diferente dos golpistas que se fingem de cego pra aplicar o golpe, esse era um cego de verdade. Não sei como, mas eu sabia que era cego mesmo. O que eu não sabia era o que fazer: se dava dinheiro ou não.

Eis um conflito moral, meio banal, mas que ilustra bem como tomamos as decisões em nossas vidas, em especial essas que precisamos definir (sem nenhum juiz ou autoridade divina no auxílio) o que é o certo e o que é errado a ser feito.

Por que dar dinheiro a um pedinte na rua? Para ele ir ao bar beber mais? Para fazer com que ele se acostume mais ainda a essa vida sem trabalho, apenas de pedir dinheiro? Há muitas razões para não se dar dinheiro. Mas e um cego legítimo?

Os gregos diriam que não. Que se o sujeito é cego, é porque ele fez por merecer de algum modo. Foi uma punição dos deuses. Já na nossa cultura, a coisa muda de figura e as posições são ambíguas. Tem um conto do H.G. Wells, por exemplo, em que uma comunidade de cegos vive em uma cidade já há muitas gerações de cegos. Só tem cego lá. E quando chega algum viajante que consegue enxergar, bem, ele é mal recebido. Cria-se uma espécie de preconceito contra aquele que é de fora, aquele que "vê" diferente. É claro que a figuração não é difícil de se resolver. O conto se chama "The country of the Blind".

Voltando ao sonho, não sei se dei o dinheiro ou não. Nem sei se o sonho terminou antes. Não lembro. Mas pensei, ao acordar, o cego já tem tantas dificuldades em sua vida, ele não pode ver. E vive em um mundo onde todos podem ver. Mesmo que queira o dinheiro para encher a cara de álcool, ele merece todas as doses de pinga do mundo. No lugar dele, dramático e fraco do jeito que sou, eu já teria me matado, ido pra outro planeta, como diz o meu pai.

Só que, dando o dinheiro, no fundo eu só o faria sofrer mais, mantendo-o nessa vida bandida de bar em bar, sem enxergar, sem sequer saber que cor tem a pinga. Bom, já me perco em considerações bobas e sem sentido. Só queria contar o sonho mesmo.

Bom domingo a todos.

:)

6.8.10

O FIM DA ANGÚSTIA

Para quem acompanhou o drama envolvendo o meu registro profissional junto ao Ministério do Trabalho em um post do mês passado, declaro que venci a batalha. Se a greve acabou? Não. Nem sei se vai acabar. Pra mim, pouco me importa agora. Tive inúmeras noites muito mal dormidas pra continuar me preocupando com essa palhaçada, chega. Enough. Ça suffit. Ou, em iídiche, genug, schmucken kops.

Em Piracicaba, cidade "recanto e de encantos" (como li em uma placa local hoje) a Gerência Regional do Trabalho faz registros profissionais (de jornalistas, artistas, locutores e outras profissões) desde o dia 22 do último mês. Por isso, meu caro amigo jornalista que ainda não tem o seu MTB, tire um dia da sua vida bandida pra conhecer a "noiva da colina". São apenas duas horas e meia de São Paulo e o atendimento é preferencial, muito atencioso e simpático. Sem greves, sem piquetes, sem confusão. Apenas uma pracinha agradável na frente em que você pode esperar lendo aquele livro que está para terminar faz tempo, enquanto eles providenciam em algumas horas o seu registro.

Nunca precisou do MTB na vida? Nem crê que vai precisar? Repense. Eu nunca tinha pensado nisso, nem sabia o que significava esse documento (que na verdade é só um carimbo e um número na sua carteira de trabalho), mas de repente isso virou um transtorno na minha vida por mais de dois meses. A Record exige. E outros veículos, como a Globo, também. Vale para qualquer concurso público. Então não custa. Ah, e em São Paulo, cuja superintendência do Ministério do Trabalho fica na rua Martins Fontes (lá pra baixo da Augusta), demora muito pra tirar. Às vezes dois meses. Imagine em um período pós-greve: deve demorar anos com a quantidade de papel parado que ficou lá desde o início da greve. Em "Pira, a cidade do peixe mais gostoso do Brasil, o 'filhote'", apenas algumas horas. Pense nisso.

No link da Gerência Regional acima explica tudo direitinho o que fazer pra tirar o seu registro de jornalista, o que levar etc. Mas farei um texto mais detalhado pro blog Novo em Folha da Ana Estela (editora de Treinamento da Folha) e a partir de lá creio que muita gente com o mesmo problema e com as mesmas dúvidas vá ficar mais tranquila.

Algumas pessoas que devo agradecer nessa verdadeira conquista: Ligia (minha ex-chefe na Folha Online e que será chefe de novo, agora no R7), que esperou esse tempo todo; minha mãe, que teve ideias geniais sobre como tirar o MTB mesmo com a greve (a quem dediquei post semana passada); Cláudio e Walter, funcionários da Gerência Regional em Piracicaba, que me atenderam muito bem, provando que nem sempre o funcionarismo público é tão podre quanto parece; e, claro, à Juliana, que me apoiou o tempo todo, me deu força quando precisei (inclusive financeiramente) e sempre tinha uma palavra ou um gesto que me tranquilizavam nos auges dos meus surtos sobre o rolo todo -- e que inevitavelmente alteravam o meu humor, que já é tão desnorteado.

Em homenagem, deixo vocês com imagens da greve maldita. Enjoy. :)









5.8.10

A FOLHA É MAIS SEM GRAÇA QUE O HUMOR IRANIANO

Hoje de manhã a Juliana me alertou para uma notícia da Folha. Noticiava que o Irã havia criado um site cômico sobre a "grande mentira histórica do Holocausto". Eu entrei no site, toca a música-tema da Pantera Cor de Rosa e vi que: (1) não tem graça nenhuma (está aí uma característica que falta aos iranianos e antissemitas: bom humor); (2) a falta de humanidade é chocante.

Mas não falarei sobre o site iraniano, que não merece o meu tempo e certamente estará fora do ar em pouco tempo. Falarei sobre a notícia da Folha. OK, era apenas uma nota informativa, de algo que aconteceu e ponto final. Que o Irã criou tal site para questionar a veracidade dos fatos e dos números referentes à barbárie ocorrida no fim da primeira metade do século passado. Mas tal tipo de noticiário e a maneira como o texto foi redigido gera desinformação: aqueles que pouco sabem sobre o Holocausto aprendem nesse texto que o Irã questiona o acontecimento e suas proporções e, mais, que Israel se usa da "desculpa histórica" para ser soberano no Oriente Médio.

Aqui no Brasil, país em que poucos sabem o que foi o Holocausto, é muito perigoso. Para um público que teve uma das piores aulas de História do mundo inteiro é complicado não informar fatos que podem parecer básicos a um público mais letrado (me lembro de dados recentes que comparavam o ensino de História em diversos países, desenvolvidos ou não, e o Brasil figurava como um dos piores, junto com os Estados Unidos!).

Aliás, num país onde poucos sabem sequer o que é um "judeu" (acham que é um alien, por exemplo, e se assustam quando vão ao Bom Retiro ou a Higienópolis e veem um chabadnik ortodoxo) e os poucos que sabem aprenderam por causa dos filmes do Woody Allen, bom, não custa nada informar quantos judeus morreram na tragédia do Holocausto. Eu informo então: seis milhões de judeus. Em menos de uma década.

Não me espanta checar o espaço para comentários no link da página da Folha e perceber quanta gente é desumana. Vamos lá a alguns destaques dos comentários. Das camadas mais elevadas da alta intelligentsia tupiniquim:

(1) onde está a dita democracia e livre opinião, todos nós temos o direito de crê ou duvidar de fatos ou notícias que nos chegam, e muitos deles tenho certeza que é para influencia minha opinião.


(2) aqui no Brasil existe um projeto de lei do deputado Itagiba, que se diz defensor do povo, que tb pune com o cárcere aquele que intencionar questionar o holocasto! Pode?


Se o holocausto realmente existiu dessa forma como pregam os sionistas, porque precisa da força para se impor? A verdade se impõe por si só, né?


Devemos nos proteger desses tiranos, lobistas sionistas como o sr. Itagiba, que tentam desestabilizar a nossa democracia, como está ocorrendo em Israel!



O mais engraçado é que um comentário foi feito pela "companheira" Claudia Morra. Sobrenome perfeito.

Sempre que eu vejo tais manifestações de verdadeiro ódio contra os judeus, eu me lembro dessa imagem, simbólica do conhecimento dos antissemitas e do quanto eles são bons em um único tipo de humor. O involuntário.

4.8.10

ELEIÇÕES E TIRIRICA

Fiquei um tempão hoje desconectado da internet, resolvendo rolos do MTB (aguardem por boas notícias, aliás). Mas assim que cheguei percebi que o assunto de hoje, ou um deles, ou pelo menos o que mais me chamou atenção, foi o comercial de Tiririca para sua candidatura a deputado federal.

Muitos com tom professoral, moralista, terceiro-mundista e brejeiro. Que isso é uma vergonha. Que por isso que o Brasil (país tão sério) não vai pra frente. E que, se o país não é sério ainda, é por culpa dessas e outras fanfarronices aprovadas por um povo medíocre, ignorante e ovelhinha de nosso sistema político.

Outros, felizmente, acham graça no Tiririca e em sua cara-de-pau de dizer "pra ajudar os mais necessitados, inclusive a minha família". Sou desse time. Me divirto ainda mais em época de eleição. É uma farra do boi tão grande que quem não dá nem um risinho precisa se tratar. Ou se mudar pra Coreia do Norte, pra Gaza, pra Cuba, pra esses confins do mundo. São esses chatos que veem CQC e dizem que "ali sim está sendo feita uma crítica ao nosso país". Ah, you go to Hell, como dizem os metaleiros.

Eu nunca neguei que sou um zero à esquerda em política e minhas opiniões a respeito são às vezes tão contraditórias que, na hora do vamos ver, de participar da festa da democracia, eu anulo tudo. Fico com a consciência limpa desse jeito. Acho, sem brincadeira, que entendo mais da política israelense do que da tupiniquim. Podem me julgar, podem me chamar de ingrato, de alienado, mas prefiro me ligar mais a assuntos de importância israelense a assuntos brasileiros.

Não me gabo por isso, pessoal. Mas que não me critiquem. Entendo de humor. Entendo pouco de política. Então, na junção desses dois assuntos, qual seria o meu critério? Não é difícil a resposta. Por isso, voto 2222. Tiririca, você é gênio.

HOW DO I LOVE THEE

Eu google o nome da Sylvia Plath e, dentro os muito resultados, me aparece "neurotic poets". Fico indignado com isso. Lembro-me bem de que meu ex-orientador do mestrado não gostava dela e se referia a ela mais ou menos no mesmo tom, de americana neurótica e problemática cuja poesia era hermética e florida demais pra ser entendida, er, por homens.

Concordam? Eu não. A Sylvia Plath é o meu nome preferido quando falamos em gênero lírico moderno. A primeira vez que li o poema "Daddy" com o final "Daddy, daddy, you bastard, I'm through" me levou a procurar outras poemas dela, pois esse havia falado muito bem comigo. Yep, call me sick. Yep, call me Franz Kafka.

O Woody Allen, em um trecho de seu "Annie Hall" (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), comenta sobre ela: "Oh, Sylvia Plath, whose tragic suicide was misinterpreted as romantic by the schoolgirl mentality". Ou seja, ou ela é banalizada por menininhas colegiais ou ela é estereotipada por conta desses absurdos que falam dela. O ovo ou a galinha?

O primeiro livro que comprei dela foi o "Ariel", de 1965. Muitos poemas dali não entendo até hoje, mas outros nunca mais esqueci, como "The Bee Meeting" e o próprio "Daddy". Depois fui comprando mais, até a compra definitiva de uma edição com toda a obra dela, com prefácio de Sir Ted Hughes. O livro se perdeu pelos "caminhos da vida", expressão que gosto porque retrata como nossas vidas podem ser clichê, mas Sylvia Plath continua sendo the man for me. As she once wrote, "the blood jet is poetry / there is no stopping it".

O meu poema preferido, e que vai pra nossa coluna semana HOW DO I LOVE THEE, é o "Pursuit", que retrata uma perseguição de uma pantera que cada vez mais se aproxima do sujeito em um cenário natural entre montanhas, florestas, algo assim. Até que se consegue fugir da pantera quando se adentra em uma torre (the tower of my fears) e as portas são fechadas. No entanto, lá vem a pantera de novo, passo a passo subindo os degraus da escadaria rumo às portas da torre.

Longe de querer fazer uma análise completa do poema, que é longo, mas fica a pista de uma relação amorosa, de um desejo prestes a se realizar, mas que fugimos, pois sabemos de seus perigos, de suas consequências. Mais do que a pantera ser a mera representação do amor, ela serve de espelho do que o sujeito está sentindo frente a essa aproximação, que é encarada como ameaça, cujas armadilhas no meio do caminho para evitá-la nunca são suficientes.

Ah, a epígrafe do poeta francês Racine dá a dica pra tudo isso.

Atentem para os versos finais do poema. Fechem os olhos e sintam a pantera se aproximar enquanto você aguarda, já sem muito o que fazer nem pra onde ir.

Dans le fond des forêts, votre image me suit
RACINE

There is a panther stalks me down:
One day I'll have my death of him;
His greed has set the woods aflame,
He prowls more lordly than the sun.
Most soft, most suavely glides that step,
Advancing always at my back;
From gaunt hemlock, rooks croak havoc:
The hunt is on, and sprung the trap.
Flayed by thorns I trek the rocks,
Haggard through the hot white noon.
Along red network of his veins
What fires run, what craving wakes?

Insatiate, he ransacks the land
Condemned by our ancestral fault,
Crying: blood, let blood be spilt;
Meat must glut his mouth's raw wound.
Keen the rending teeth and sweet
The singeing fury of his fur;
His kisses parch, each paw's a briar,
Doom consummates that appetite.
In the wake of this fierce cat,
Kindled like torches for his joy,
Charred and ravened women lie,
Become his starving body's bait.

Now hills hatch menace, spawning shade;
Midnight cloaks the sultry grove;
The black marauder, hauled by love
On fluent haunches, keeps my speed.
Behind snarled thickets of my eyes
Lurks the lithe one; in dreams' ambush
Bright those claws that mar the flesh
And hungry, hungry, those taut thighs.
His ardor snares me, lights the trees,
And I run flaring in my skin;
What lull, what cool can lap me in
When burns and brands that yellow gaze?

I hurl my heart to halt his pace,
To quench his thirst I squander blook;
He eats, and still his need seeks food,
Compels a total sacrifice.
His voice waylays me, spells a trance,
The gutted forest falls to ash;
Appalled by secret want, I rush
From such assault of radiance.
Entering the tower of my fears,
I shut my doors on that dark guilt,
I bolt the door, each door I bolt.
Blood quickens, gonging in my ears:

The panther's tread is on the stairs,
Coming up and up the stairs.

2.8.10

Arcade Fire | The Suburbs

The Suburbs is their most thrillingly engrossing chapter yet; a complex, captivating work that, several cycles down the line, retains the magic and mystery of that first tentative encounter. You could call it their OK Computer. But it’s arguably better than that.



"The Suburbs" é o terceiro álbum do supergrupo canadense Arcade Fire, lançado hoje na Inglaterra (sai amanhã nos EUA). E quem escreveu a crítica que abre esse post lá no alto foi a BBC inglesa. Eles não só compararam o trabalho ao "OK Computer", intocável álbum do Radiohead considerado por muitos o melhor álbum dos anos 90, mas disseram que é melhor. BETTER THAN THAT. Como assim?

Pra mim, o "OK Computer" é uma obra-prima que nenhum artista conseguirá fazer igual. "Pet Sounds", "Nevermind", "Sgt. Peppers", "Dark Side of the Moon", nada é melhor que o álbum do Radiohead. É uma opinião radical? É, mas tenho um time inteiro do meu lado. Então como eu deveria ouvir esse "The Suburbs" ciente dessas opiniões igualmente radicais a respeito? Será que eu mudaria de opinião, o álbum é tão bom assim? Revolucionário, blaster master hyper of the universe? Let's see. Ouvi do começo ao fim e já estou na terceira audição enquanto digito esse texto.

A música que abre o álbum (que leva o mesmo nome) me fez pensar em "Airbag", a que abre "OK Computer". São músicas muito diferentes; enquanto o Radiohead expõe de cara toda sua experimentação com o produtor-gênio Nigel Godrich e toda a paranoia de Thom Yorke berrando que "in an interstellar burst, I'm back to save the universe", aqui Win Butler nos apresenta uma espécie de valsinha levada pelo piano de Régine Chassagne (sua esposa). Quase que olhando pra trás, ele começa a cantar:

In the suburbs I learned to drive / you told me I'd never survive


A melodia mais agradável do mundo, que dá pra ouvir infinitamente, é o que achei dessa faixa de abertura. E aqui já adianto: se a BBC achou o disco deles melhor que o "OK Computer", certamente não foi por eles terem seguido a mesma linha. São dois trabalhos muito distintos, nada a ver. A BBC considerou o álbum inovador justamente por essa linha que Butler e cia. pareceram traçar entre passado e futuro, não só da própria banda, mas do futuro da música. "The Suburbs" diz como será o som que iremos ouvir por um bom tempo, o rock do futuro, como a revista francesa "Les Inrockuptibles" chamou. É o que o Radiohead fez naquele ano de 96. Isso é muita coisa. Mesmo.

O disco inteiro pode virar single pra mim. Seriam 14 músicas (pois duas delas são apenas "intermissions") tocando na rádio e a banda ficando milionária. E nesse sentido "The Suburbs" é muito mais pop que o "OK Computer". E não é exagero meu, não: você fica com muita vontade de ouvir todas as músicas no "repeat". Com o álbum do Radiohead é o contrário, é um todo: você quer ouvi-lo na sequência, música a música, como se fosse uma obra interdependente.

Destaques para "Modern Man", que achei muito a cara de um David Bowie daqui vinte anos (no offenses intended), "Month of May", que parece o Queens of the Stone Age (não tem cara de Arcade Fire), e a mais bonita de todas: "Rococo".

E "Rococo" merece um parágrafo especial, eu que já ia terminando o texto. Alguém, em algum momento da história da música pop e do formato do cd, inventou que a música 4 tinha que ser o hit matador, a melhor, pra tocar nas rádios e pra ser ouvida por muitos e muitos anos. Reparem em seus cds preferidos, vejam se a faixa 4 não é boa? Então, e a "Rococo" é a faixa 4 aqui. E é espetacular. Eles pegaram o que fizeram no primoroso "Funeral" (álbum de estreia, de 2004) inteiro, multiplicaram por um trilhão, chamaram Deus pra dar o retoque final, e saiu essa música. Parece que cada nota, cada segundo, é cheio de ambição. Primeiro só o violão, depois piano, entram as cordas, para surgirem guitarras vindo de todos os lados do seu fone de ouvido. É muito bonita mesmo e tem cara daquele tipo de música que os ingleses adoram, que vira hino na Inglaterra. A voz de Butler e de todo mundo da banda acompanha o ritmo em um "ro-co-co-co-co-co..." ad infinitum que é alucinante. E eles começam assim:

Let's go downtown and watch the modern kids / talk to the modern kids






Temas presentes no "Funeral" aparecem de novo aqui, a saber: sensação de abandono, alienação, sonhos que não se concretizaram. Mais ou menos como um espelhinho retrovisor de um carro que está partindo não sabe pra onde, mas muito rápido. E eu tenho certeza que o destino do Arcade Fire é a consagração. Nunca será um Radiohead nem fará um "OK Computer", mas tem tudo pra levar o prêmio de melhor disco dessa década que estamos adentrando.

ps: já vi o Arcade Fire em dois shows diferentes e ambos foram marcantes. O show é sempre absurdamente alto, eles correm pelo palco com bandeiras, trocam de instrumentos, berram em alto-falantes e o diabo-a-quatro. Quero ver agora pela terceira vez.


VÍDEOS DO ARCADE FIRE:
(1) "Rococo" | The Suburbs




(2) "Wake Up" | Funeral (live + David Bowie)

1.8.10

|fotos sobre e com livros|

Descobri hoje, talvez tardiamente, o tumblr Fuckyeahreading. Algumas das imagens que favoritei seguem abaixo. A minha preferida acho que é aquela lá embaixo, com os New Yorkers lendo a caminho de casa, depois de um dia chato na escola. :)
















|sem palito|

O Palito está internado, só volta pra casa amanhã (segunda). Ficou doente, com febre alta, jururu, não quis comer, mas agora já está melhor. Era uma espécie de "parasita intestinal" que o derrubou. Vamos buscá-lo lá na clínica amanhã. Não vejo a hora -- a casa sem ele fica sem graça.

Enquanto ele não volta e eu não volto a ficar feliz, algumas fotos.

(1) Eu e ele. :)



(2) O Museu de Zoologia da USP (fomos ontem de tarde, antes de o Palito ficar doente) é muito legal e valeu pela dose de nostalgia, de quando era pequeno e ia com os meus pais. Do lado do Museu do Ipiranga. Gratuito para a comunidade USP (o mesmo vale pro Museu do Ipiranga).










(3) O Museu do Ipiranga (ou, nome oficial, Museu Paulista da USP).