Aqui perto de casa tem um prédio que, mesmo entre os mais legais, mais chiques ou mais tradicionais do bairro, é um dos meus preferidos. E ele é simples, pequeno, escondido --quase no limite com a Santa Cecília. O seu nome também não é complicado nem em francês: se chama "Lucia". Fácil.
Para quem quiser fazer uma visita "turística", fica na rua Aureliano Coutinho, entre as ruas Jaguaribe e Dr. Martinico Prado. Enquanto o Street View do Google ainda não está pegando em São Paulo, deixo vocês com fotos da fachada. Reparem a estátua oriental (hindu?) que tem acima da porta. O que poderia ser um detalhe vergonhoso na fachada virou charme. :)
28.2.10
27.2.10
25.2.10
|patos no inverno|
Quando fui passear pela primeira vez no Central Park em um dia de rigoroso inverno, em dezembro de 2007, estranhei a presença dos patos sobre os lagos gelados do parque. Holden Caulfield, do "Catcher in the Rye", havia me dito que não deveriam estar ali.
Naquele momento, e foi um dia triste na minha vida, eu percebi que todo o mistério dos patos sobre o qual o protagonista de Salinger se perguntava era apenas uma ficção, uma invenção --ou talvez eu já estivesse muito à frente daquela Nova York dos anos 40, tempos em que de fato os patos sumiam do parque no inverno.
E o mistério da vida, que eu hesitava em aceitar, se desmoronou diante de mim como os primeiros floquinhos de neve; não com aquela magia que a gente imagina de como será a primeira vez em que se vê neve, mas com o peso de um deus furioso que avança sobre os dissidentes, infieis ou transgressores de sua Lei.
Hoje leio o caderno especial da Folha sobre a cidade e há uma entrevista com Peter Beidler, autor de "A Reader's Companion to J.D.Salinger's Catcher in the Rye". Perguntado sobre esse motivo no livro, ele confirma que os patos ficam no parque mesmo, não saem dali. E sai com uma resposta espetacular: "Os patos sabem cuidar de si mesmos. Holden, não."
Passados alguns anos reconheço que eu também não sabia cuidar de mim mesmo.
Quando voltei pra lá no ano passado, dessa vez a passeio, entrei muito rapidamente no Central Park e a sensação, de longe, não era mais de aflição ou desorientação. Foi só uma sensação boa, embora estranha, de reconhecimento. Não quis saber de procurar patos: na minha cabeça, eles agora já haviam voltado ao seu mistério dos anos 40, recuperado graças ao infalível efeito do tempo.
Naquele momento, e foi um dia triste na minha vida, eu percebi que todo o mistério dos patos sobre o qual o protagonista de Salinger se perguntava era apenas uma ficção, uma invenção --ou talvez eu já estivesse muito à frente daquela Nova York dos anos 40, tempos em que de fato os patos sumiam do parque no inverno.
E o mistério da vida, que eu hesitava em aceitar, se desmoronou diante de mim como os primeiros floquinhos de neve; não com aquela magia que a gente imagina de como será a primeira vez em que se vê neve, mas com o peso de um deus furioso que avança sobre os dissidentes, infieis ou transgressores de sua Lei.
Hoje leio o caderno especial da Folha sobre a cidade e há uma entrevista com Peter Beidler, autor de "A Reader's Companion to J.D.Salinger's Catcher in the Rye". Perguntado sobre esse motivo no livro, ele confirma que os patos ficam no parque mesmo, não saem dali. E sai com uma resposta espetacular: "Os patos sabem cuidar de si mesmos. Holden, não."
Passados alguns anos reconheço que eu também não sabia cuidar de mim mesmo.
Quando voltei pra lá no ano passado, dessa vez a passeio, entrei muito rapidamente no Central Park e a sensação, de longe, não era mais de aflição ou desorientação. Foi só uma sensação boa, embora estranha, de reconhecimento. Não quis saber de procurar patos: na minha cabeça, eles agora já haviam voltado ao seu mistério dos anos 40, recuperado graças ao infalível efeito do tempo.
19.2.10
|fotos|
Fotos que registram alguns momentos da semana.
(1) Primor de mensagem na Cidade Universitária, a Palestina brasileira. Ou a Cisjordânia tupiniquim. Ou a faixa de Gaza dos trópicos. Chamem como quiser, faz tempo que aquele esgoto a céu aberto da intelectualidade pataxó é sinônimo de antissemitismo desajeitado e cômico.
(2) Presente de aniversário adiantado da Juliana. Um Lego, edição especial do Empire State Building, que montei em menos de cinco minutos. Grato. Aqui nas fotos, ela e um elefante tentando ser King Kong.
(3) Eu, momento "Fantástico Sr. Raposo". :)
(1) Primor de mensagem na Cidade Universitária, a Palestina brasileira. Ou a Cisjordânia tupiniquim. Ou a faixa de Gaza dos trópicos. Chamem como quiser, faz tempo que aquele esgoto a céu aberto da intelectualidade pataxó é sinônimo de antissemitismo desajeitado e cômico.
(2) Presente de aniversário adiantado da Juliana. Um Lego, edição especial do Empire State Building, que montei em menos de cinco minutos. Grato. Aqui nas fotos, ela e um elefante tentando ser King Kong.
(3) Eu, momento "Fantástico Sr. Raposo". :)
|vampire weekend - contra|
Já faz mais de um mês que uma das minhas bandas favoritas da atualidade lançou um cd e eu não comentei nada. Não adianta justificar, mas esse tempo todo de audição serviu para eu pensar melhor sobre o álbum inteiro e dizer o quanto ou não eu gostei do trabalho.
A banda é o Vampire Weekend, que já mencionei em muitas postagens anteriores e até já dediquei um texto pequeno a eles, falando justamente da expectativa que eu tinha do lançamento do "Contra", o segundo cd. Pode soar cafona e banal, mas um segundo disco na carreira de uma banda define se ela pode caminhar adiante no mainstream, ou se ela vai se afundar de vez no universo dos independentes, ou até se vai cair no esquecimento até daquele público fiel, que se apaixonara pelo primeiro álbum.
E depois de mais de um mês ouvindo o "Contra", eu estou no time do consenso: o Vampire Weekend vai se manter muito tempo ainda nas paradas. Foi direto pro primeiro lugar da Billboard logo que lançado, na frente de dinossauros como Susan Boyle (er) e Mary J. Blige. Acompanhei também as mídias especializadas em músicas e poucas não pareciam entusiasmadas com o cd. Da francesa "Inrockuptibles" ao mais ortodoxos, como o "NYT", todos gostaram.
Aquela parte de Nova York que une formação intelectual e musical com simplicidade quase exótica ainda está presente, mas, se aquele grupo de meninos recém-saídos da universidade de Columbia era apenas mais um dentre os muitos, especialmente dentro da nova cena polarizada pelo Brooklyn (MGMT é o exemplo máximo), agora eles atingiram um nível tal de elegância em suas influências sonoras que já estão invadindo um território da "música popular nova-iorquina" - não a americana. Esse espaço é liderado por Paul Simon e Art Garfunkel.
Todas aquelas batidas africanas, caribenhas e afins são combinadas e recombinadas, às vezes em uma mesma canção, em um pop moderno, que eu considero quase vital na música americana hoje. Os momentos de virtuose ora com a percussão e o baixo ora com as cordas (escalas maiores e menores com a voz em contraponto) não soam forçados e nem parecem só uma inspiração casual de um bando de garotos bem educados. Nada é casual nas músicas do Vampire Weekend.
Batidas como a de "White Sky" têm um tempo que não é americano (de seis em seis) e mostra que a banda apropriou-se dessas influências todas sem medo. Há sempre o risco de soar como um "colonialismo tardio ou redescoberto", mas isso me soa crítica ultrapassada. Paul Simon, que mencionei acima, abriu as portas nesse sentido e já levou todo o crédito e o descrédito por isso.
As letras carregam o mesmo aspecto absurdo e difícil do primeiro álbum (a saber "a thousand little Julias that come together in the middle of Manhattan" e "you found a sweater in the ocean floor"). No entanto, em uma música ou outra, eles parecem explicar a si mesmos por meios de imagens imprecisas, mas muito bonitas, como nesse trecho de "Taxi Cab":
"You said 'baby, we don't speak of that', like a real aristocrat"-- como se uma voz ou um tom aristocrata, de quem pode estudar em Columbia, estivesse ali presente, não como intervenção, mas como pivô entre os trilhões de referências.
Minhas prediletas são "White Sky", "Taxi Cab" e "I Think U'r a Contra". A letra dessa última é claramente mais pessoal e menos enigmática, como um lamento melancólico pra fechar o cd com chave de ouro. Não sou conhecedor de música clássica, mas me lembra Mahler de tão bonita. Deixo vocês com essas três canções.
Impecável.
A banda é o Vampire Weekend, que já mencionei em muitas postagens anteriores e até já dediquei um texto pequeno a eles, falando justamente da expectativa que eu tinha do lançamento do "Contra", o segundo cd. Pode soar cafona e banal, mas um segundo disco na carreira de uma banda define se ela pode caminhar adiante no mainstream, ou se ela vai se afundar de vez no universo dos independentes, ou até se vai cair no esquecimento até daquele público fiel, que se apaixonara pelo primeiro álbum.
E depois de mais de um mês ouvindo o "Contra", eu estou no time do consenso: o Vampire Weekend vai se manter muito tempo ainda nas paradas. Foi direto pro primeiro lugar da Billboard logo que lançado, na frente de dinossauros como Susan Boyle (er) e Mary J. Blige. Acompanhei também as mídias especializadas em músicas e poucas não pareciam entusiasmadas com o cd. Da francesa "Inrockuptibles" ao mais ortodoxos, como o "NYT", todos gostaram.
Aquela parte de Nova York que une formação intelectual e musical com simplicidade quase exótica ainda está presente, mas, se aquele grupo de meninos recém-saídos da universidade de Columbia era apenas mais um dentre os muitos, especialmente dentro da nova cena polarizada pelo Brooklyn (MGMT é o exemplo máximo), agora eles atingiram um nível tal de elegância em suas influências sonoras que já estão invadindo um território da "música popular nova-iorquina" - não a americana. Esse espaço é liderado por Paul Simon e Art Garfunkel.
Todas aquelas batidas africanas, caribenhas e afins são combinadas e recombinadas, às vezes em uma mesma canção, em um pop moderno, que eu considero quase vital na música americana hoje. Os momentos de virtuose ora com a percussão e o baixo ora com as cordas (escalas maiores e menores com a voz em contraponto) não soam forçados e nem parecem só uma inspiração casual de um bando de garotos bem educados. Nada é casual nas músicas do Vampire Weekend.
Batidas como a de "White Sky" têm um tempo que não é americano (de seis em seis) e mostra que a banda apropriou-se dessas influências todas sem medo. Há sempre o risco de soar como um "colonialismo tardio ou redescoberto", mas isso me soa crítica ultrapassada. Paul Simon, que mencionei acima, abriu as portas nesse sentido e já levou todo o crédito e o descrédito por isso.
As letras carregam o mesmo aspecto absurdo e difícil do primeiro álbum (a saber "a thousand little Julias that come together in the middle of Manhattan" e "you found a sweater in the ocean floor"). No entanto, em uma música ou outra, eles parecem explicar a si mesmos por meios de imagens imprecisas, mas muito bonitas, como nesse trecho de "Taxi Cab":
"You said 'baby, we don't speak of that', like a real aristocrat"-- como se uma voz ou um tom aristocrata, de quem pode estudar em Columbia, estivesse ali presente, não como intervenção, mas como pivô entre os trilhões de referências.
Minhas prediletas são "White Sky", "Taxi Cab" e "I Think U'r a Contra". A letra dessa última é claramente mais pessoal e menos enigmática, como um lamento melancólico pra fechar o cd com chave de ouro. Não sou conhecedor de música clássica, mas me lembra Mahler de tão bonita. Deixo vocês com essas três canções.
Impecável.
10.2.10
|betty|
Como divaguei muito no post anterior, deixo vocês com uma imagem bonita. "Betty" (1988), pintura espetacular de Gerhard Richter.
|rá|
Os antigos egípcios, tão logo estivessem perto de sua morte, começavam a preparar um laborioso e extenso relato de todos os pecados que não haviam cometido em vida, chamado de "confissão negativa". Tratava-se, antes de qualquer possibilidade de autoindulgência, de um esforço para se lembrar do que realmente o sujeito não tinha feito de errado.
Outras sociedades, anteriores, contemporâneas e posteriores a esses egípcios matadores de hebreus e adoradores de Rá, jamais pensaram nesse tipo de comprometimento com o que "não se faz". Acho até que independe da questão trivial do que é pensar como um ocidental e do que é pensar de modo oriental --até onde eu sei, os japoneses ou qualquer outro povo semita jamais conceberam tal sistema "negativo", ou às avessas, de pagar os seus pecados e transgressões. Seria uma maneira de você se safar não pelo que você fez de bom, mas pelo que você não fez de ruim. Que outra sociedade pensava assim? O indulto aqui é totalmente retorcido pelo avesso --e uma estratégia genial para quem está preocupado com o que vai acontecer depois da morte.
Explico.
Pensando pela via judaico-cristã, voltemos aos "very basics" das Escrituras: os dez mandamentos. São eles: (1) "Eu sou o teu Deus"; (2) além de mim não há; (3) não use o nome de Deus em vão; (4) guarde o Shabat (sábado, para os judeus --domingo para os cristãos, quando esses estupraram o sentido original hebraico e trocaram o dia); (5) honrar pai e mãe; (6) não matar; (7) não adulterar; (8) não furtar; (9) não dar falso testemunho, i.e. não mentir; e, enfim, (10) não cobiçar nada que é do próximo.
O Google me ajudou nisso acima, mas eu me lembrava de todos, só não da ordem --posso ser ateu, mas uso a estratégia sempre do "know your enemy" e conheço a Bíblia, pelo menos o Antigo Testamento, de cabo a rabo. Aliás, para os judeus, não são apenas dez mandamentos, mas 613 "mitzvót" (espécies de mandamentos). E a tchurma ainda quer ficar se convertendo pro judaísmo.
Vocês podem me questionar por que raios o item (1) é um mandamento. É complicado mesmo, mas funciona mais para o antigo hebreu, que vivia rodeado de outros deuses. Quando Moisés recebeu as duas tábuas escritas por Deus com tudo isso no Sinai, era um alerta: o mundo não era monoteísta como é hoje, milhares de anos depois. E o Deus judaico é ciumento e possessivo, portanto, todos esses deuses aí que vos rodeiam, hebreus, não liguem para eles, pois não são nada: "Eu sou teu Deus". É um imperativo e assim que começa o texto; um imperativo até com o nome de Deus na forma do tetragramaton, ou seja, quatro letras hebraicas que, juntas, formam o nome mais poderoso e inefável de God. Enfim, isso não é aula de cultura judaica e eu gostaria de concluir com o gancho lá do começo, dos egípcios.
Desses dez mandamentos, você já desrespeitou quantos? Poucos, imagino. Empate dá com certeza -- 5 a 5. Isso porque sequer estou contando a indulgência de todos nós. É fácil ser cristão, difícil mesmo era adorar o deus Rá, que exigia muito mais. E então vejo o sentido da tal "confissão negativa": numa sociedade em que a noção de transgressão é bem mais rígida e suas chances de redenção após a morte são bem poucas, não vale muito ficar glorificando os feitos bons. Importante mesmo e, mais, o que definia se você, nobre egípcio, iria ou não para o Vale dos Juncos (espécie de Campos Elíseos ou Paraíso deles), era o que você não fez de errado.
Aqui e agora, sei lá quantos mil anos depois, se vincularmos nossa noção judaico-cristã de pecado com a "confissão negativa" egípcia, estamos todos salvos. Pelo menos na minha conta --não sou bom em matemática, mas essa conta de 10 - X não é difícil. Faça a sua e carimbe o passaporte pro Paraíso. E viva o sincretismo religioso.
Esse blog começa a divagar...
Outras sociedades, anteriores, contemporâneas e posteriores a esses egípcios matadores de hebreus e adoradores de Rá, jamais pensaram nesse tipo de comprometimento com o que "não se faz". Acho até que independe da questão trivial do que é pensar como um ocidental e do que é pensar de modo oriental --até onde eu sei, os japoneses ou qualquer outro povo semita jamais conceberam tal sistema "negativo", ou às avessas, de pagar os seus pecados e transgressões. Seria uma maneira de você se safar não pelo que você fez de bom, mas pelo que você não fez de ruim. Que outra sociedade pensava assim? O indulto aqui é totalmente retorcido pelo avesso --e uma estratégia genial para quem está preocupado com o que vai acontecer depois da morte.
Explico.
Pensando pela via judaico-cristã, voltemos aos "very basics" das Escrituras: os dez mandamentos. São eles: (1) "Eu sou o teu Deus"; (2) além de mim não há; (3) não use o nome de Deus em vão; (4) guarde o Shabat (sábado, para os judeus --domingo para os cristãos, quando esses estupraram o sentido original hebraico e trocaram o dia); (5) honrar pai e mãe; (6) não matar; (7) não adulterar; (8) não furtar; (9) não dar falso testemunho, i.e. não mentir; e, enfim, (10) não cobiçar nada que é do próximo.
O Google me ajudou nisso acima, mas eu me lembrava de todos, só não da ordem --posso ser ateu, mas uso a estratégia sempre do "know your enemy" e conheço a Bíblia, pelo menos o Antigo Testamento, de cabo a rabo. Aliás, para os judeus, não são apenas dez mandamentos, mas 613 "mitzvót" (espécies de mandamentos). E a tchurma ainda quer ficar se convertendo pro judaísmo.
Vocês podem me questionar por que raios o item (1) é um mandamento. É complicado mesmo, mas funciona mais para o antigo hebreu, que vivia rodeado de outros deuses. Quando Moisés recebeu as duas tábuas escritas por Deus com tudo isso no Sinai, era um alerta: o mundo não era monoteísta como é hoje, milhares de anos depois. E o Deus judaico é ciumento e possessivo, portanto, todos esses deuses aí que vos rodeiam, hebreus, não liguem para eles, pois não são nada: "Eu sou teu Deus". É um imperativo e assim que começa o texto; um imperativo até com o nome de Deus na forma do tetragramaton, ou seja, quatro letras hebraicas que, juntas, formam o nome mais poderoso e inefável de God. Enfim, isso não é aula de cultura judaica e eu gostaria de concluir com o gancho lá do começo, dos egípcios.
Desses dez mandamentos, você já desrespeitou quantos? Poucos, imagino. Empate dá com certeza -- 5 a 5. Isso porque sequer estou contando a indulgência de todos nós. É fácil ser cristão, difícil mesmo era adorar o deus Rá, que exigia muito mais. E então vejo o sentido da tal "confissão negativa": numa sociedade em que a noção de transgressão é bem mais rígida e suas chances de redenção após a morte são bem poucas, não vale muito ficar glorificando os feitos bons. Importante mesmo e, mais, o que definia se você, nobre egípcio, iria ou não para o Vale dos Juncos (espécie de Campos Elíseos ou Paraíso deles), era o que você não fez de errado.
Aqui e agora, sei lá quantos mil anos depois, se vincularmos nossa noção judaico-cristã de pecado com a "confissão negativa" egípcia, estamos todos salvos. Pelo menos na minha conta --não sou bom em matemática, mas essa conta de 10 - X não é difícil. Faça a sua e carimbe o passaporte pro Paraíso. E viva o sincretismo religioso.
Esse blog começa a divagar...
2.2.10
|salinger|
Reconheço que, apesar de alguns contos sobre a família Glass publicados aqui e ali e lidos de maneira descolada, a única obra que de fato já li do Salinger foi o "The Catcher in the Rye". Não era --e continua não sendo-- um autor que admiro a ponto de inseri-lo na lista dos dez preferidos ou daqueles com o qual me identifico. As suas histórias não contam a minha vida e, para dano do meu juízo crítico, levo muito em conta essa identificação (imediata ou não) com determinada obra, personagem ou mesmo o mero enredo. Claro que muitas das inquietações de Holden Caulfield eram e são as minhas, mas não se trata nem de longe de um Alex Portnoy (em Philip Roth) ou um Moses Herzog (em Saul Bellow), personagens que facilmente levariam o nome de Thiago Blumenthal.
Quando li o "Catcher" eu devia estar na "idade certa" para ler, se considerar o que muitos falsos críticos ou intelectualoides dizem sobre a obra. Na minha graduação, não estudei Salinger (ainda que faça parte do programa de literatura americana), eu já tinha lido antes; desconheço a fortuna crítica do autor. No mestrado, idem --o único estudo que desenvolvi em literatura americana não envolvia Salinger. E no meu projeto de doutorado, o meu tema era Carson McCullers, americana também, mas que passava muito longe dos motivos e dos temas do autor nova-iorquino.
Já tive demoradas conversas com a minha namorada sobre tudo envolvendo Salinger. Desde sua apreciação crítica (ou falta de) por parte da academia até toda a logística insana que envolvia publicar um livro dele: não podia ter imagens, texto de contracapa, orelha. Nada. E as traduções, aprendi, eram um outro ponto de honra para o autor --ele estava certo: mesmo neurótico com essas questões, Portugal e seu orgulho patrício teve a decência de lançar a tradução do "Catcher" como "Uma Agulha no Palheiro". Eu, se fosse um autor reconhecido, também teria o mesmo tipo de exigência: "não quero que traduzam o meu livro"; evitaria lástimas como as comumente ocorridas em Lisboa. Aliás, um amigo desavisado comprou o título pensando tratar-se de algo inédito. É o famoso FAIL.
Aprendi a admirar mais o Salinger há pouco menos de um ano. Amigos sempre me disseram que eu não dava o respeito necessário a ele. E não era desprezo, tampouco eu o considerava um "autor menor". Era só "não amar ou idolatrar" --e fãs de Salinger o idolatram. Fato é que, conhecendo mais detalhes sobre a obra inteira dele, do mosaico (ainda desconhecido, um pouco distante e incompleto para mim) que é a família Glass, eu lamentei sua morte como se fosse a de um autor daqueles preferidos da minha lista.
Muito já foi dito sobre ele, em obituários aqui e ali, em blogs bons e ruins. Vai fazer uma semana daqui a pouco. Em breve, um mês. E um pouco mais pra frente os fãs estarão guardando seus respeitos pelo aniversário de um ano de morte dele. Vão ficar os boatos, claro que vão. Vão surgir histórias inéditas, talvez --e tomara. E mais pesquisadores de sua obra vão aparecer felizmente --porque basta de semientendidos de sua literatura. Claro que Salinger já estava morto desde seu sumiço no mundo, mas agora a morte de fato o eleva às categorias de "cânone" e de "imortal". É o que eu acho. Como nos famosos versinhos de Emily Dickinson:
Because I could not stop for Death --
He kindly stopped for me --
The Carriage held but just Ourselves --
And Immortality.
Leio no texto de Lillian Ross para a "New Yorker" mais recente que Salinger ainda admirava seus "private readers" porque, no fundo, era tudo o que a gente (eu, você e ele) sempre foi. Fiquei bastante emocionado com isso. E me pergunto: o que é então a imortalidade?
___________________________________
Esse blog continua em férias. Tenho tido pouco tempo e o trabalho anda me consumindo a ponto de eu não ter tempo de pensar sobre esses assuntos legais com vocês, meus poucos e fieis leitores --ou seria meu "caro diário"? Que fique o aviso: o blog mudará de nome, talvez de layout, assim que eu conseguir voltar a me dedicar decentemente a ele.
Quando li o "Catcher" eu devia estar na "idade certa" para ler, se considerar o que muitos falsos críticos ou intelectualoides dizem sobre a obra. Na minha graduação, não estudei Salinger (ainda que faça parte do programa de literatura americana), eu já tinha lido antes; desconheço a fortuna crítica do autor. No mestrado, idem --o único estudo que desenvolvi em literatura americana não envolvia Salinger. E no meu projeto de doutorado, o meu tema era Carson McCullers, americana também, mas que passava muito longe dos motivos e dos temas do autor nova-iorquino.
Já tive demoradas conversas com a minha namorada sobre tudo envolvendo Salinger. Desde sua apreciação crítica (ou falta de) por parte da academia até toda a logística insana que envolvia publicar um livro dele: não podia ter imagens, texto de contracapa, orelha. Nada. E as traduções, aprendi, eram um outro ponto de honra para o autor --ele estava certo: mesmo neurótico com essas questões, Portugal e seu orgulho patrício teve a decência de lançar a tradução do "Catcher" como "Uma Agulha no Palheiro". Eu, se fosse um autor reconhecido, também teria o mesmo tipo de exigência: "não quero que traduzam o meu livro"; evitaria lástimas como as comumente ocorridas em Lisboa. Aliás, um amigo desavisado comprou o título pensando tratar-se de algo inédito. É o famoso FAIL.
Aprendi a admirar mais o Salinger há pouco menos de um ano. Amigos sempre me disseram que eu não dava o respeito necessário a ele. E não era desprezo, tampouco eu o considerava um "autor menor". Era só "não amar ou idolatrar" --e fãs de Salinger o idolatram. Fato é que, conhecendo mais detalhes sobre a obra inteira dele, do mosaico (ainda desconhecido, um pouco distante e incompleto para mim) que é a família Glass, eu lamentei sua morte como se fosse a de um autor daqueles preferidos da minha lista.
Muito já foi dito sobre ele, em obituários aqui e ali, em blogs bons e ruins. Vai fazer uma semana daqui a pouco. Em breve, um mês. E um pouco mais pra frente os fãs estarão guardando seus respeitos pelo aniversário de um ano de morte dele. Vão ficar os boatos, claro que vão. Vão surgir histórias inéditas, talvez --e tomara. E mais pesquisadores de sua obra vão aparecer felizmente --porque basta de semientendidos de sua literatura. Claro que Salinger já estava morto desde seu sumiço no mundo, mas agora a morte de fato o eleva às categorias de "cânone" e de "imortal". É o que eu acho. Como nos famosos versinhos de Emily Dickinson:
Because I could not stop for Death --
He kindly stopped for me --
The Carriage held but just Ourselves --
And Immortality.
Leio no texto de Lillian Ross para a "New Yorker" mais recente que Salinger ainda admirava seus "private readers" porque, no fundo, era tudo o que a gente (eu, você e ele) sempre foi. Fiquei bastante emocionado com isso. E me pergunto: o que é então a imortalidade?
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Esse blog continua em férias. Tenho tido pouco tempo e o trabalho anda me consumindo a ponto de eu não ter tempo de pensar sobre esses assuntos legais com vocês, meus poucos e fieis leitores --ou seria meu "caro diário"? Que fique o aviso: o blog mudará de nome, talvez de layout, assim que eu conseguir voltar a me dedicar decentemente a ele.
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